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A Sétima Arte nas Trincheiras

Para uma nova geração de cinéfilos, “Guerra ao Terror” talvez seja considerado um ótimo filme em seu gênero, porém basta um olhar mais profundo para descobrirmos que a obra de Kathryn Bigelow não é nenhuma novidade nesse Front. Vejamos um pouco da história desse gênero tão singular.

 


 

Singular pois se trata de algo em sua essência descomunalmente errado. Excetuando-se os militares, todos sabemos que guerras são estúpidas e que servem a propósitos mais horrendos que as chacinas que são cometidas nelas.

O cinema utilizou-se do tema com duas abordagens distintas, temos de um lado o Rambo e seus similares, sinônimos de uma cinematografia que intenciona divertir e transmitir o “American way of life” ou seria mais propriamente, o “American way to kill” seguindo a risca os desígnios do governo de sua época. Do outro lado temos um cinema que utiliza-se das guerras para lutar contra as mesmas, criticando duramente e tomando partido.

Durante a década de 50, posso destacar: “A Um Passo da Eternidade” (From Here to Eternity), que fala sobre o ataque a Pearl Harbor e “Glória Feita de Sangue” (Paths of Glory), com uma direção inspiradíssima de Stanley Kubrick. Destaco o lindo final onde um grupo de soldados força uma jovem alemã a cantar em um bar, com intenção de debochar da cara dos inimigos. A tristeza da jovem e sua bela canção fazem com que os soldados parem de caçoar dela e se emocionem a ponto de acompanhar a música com murmúrios e lágrimas nos olhos. Kubrick demonstra que consegue destruir  a guerra usando sua criatividade e emoção.

O épico “A Ponte do Rio Kwai” de David Lean aborda magistralmente a relação humanizadora entre captor e capturado em uma guerra, com uma interpretação inesquecível de Alec Guiness. Já em “O Mais Longo dos Dias”, não há apenas uma interpretação boa, mas várias! John Wayne, Henry Fonda, Sean Connery, Richard Burton e muitos outros, compõem a melhor representação do dia D já filmada!

A década de 60 trouxe escapismo ao gênero, que pode muito bem ser representado pela clássica cena de “Fugindo do Inferno” (The Great Escape), onde Steve McQueen bravamente consegue fugir do campo de concentração, pulando as cercas com sua motocicleta. Nessa obra de John Sturges, uma das maiores conquistas foi a sensação de camaradagem entre os prisioneiros e a química entre McQueen e Charles Bronson, James Garner e James Coburn. Outro exemplo dessa época foi “Os Doze Condenados” (The Dirty Dozen) que trazia em seu elenco astros do porte de Lee Marvin, Ernest Borgnine, Charles Bronson, Telly Savalas, Donald Sutherland e John Cassavetes. Na direção dessa equipe, o grande Robert Aldrich, que conseguiu injetar adrenalina e humor a um cenário devastador. Durante a Segunda Guerra Mundial, o comandante Lee Marvin fica encarregado de treinar e liderar doze condenados pela corte marcial em uma missão que envolve a morte de oficiais alemães, com a recompensa de terem suas penas aliviadas caso consigam. Quentin Tarantino se inspirou claramente nesse filme para criar seu “Bastardos Inglórios”.

Após o fim da Guerra do Vietnã, o clima havia mudado e não havia espaço para aventuras divertidas e heróicas, daí nasceram obras primas como “Patton”, “Johnny vai à Guerra”, “O Franco Atirador” e “Apocalypse Now”. Cada uma delas abordando faces desse intrincado cenário, seja levando dignidade a figura de um general controverso, utilizando uma vítima direta de uma explosão que perde todos os sentidos e mesmo assim se comunica contra a guerra, um grupo de amigos que vêem suas vidas totalmente modificadas após suas participações no Vietnã ou o estudo denso dos meandros da mente perturbada de um homem que se acha deus e os limites da força de caráter e sanidade do outro que vai em sua caça na obra eterna de Francis Ford Coppola.

Os anos 80 trouxeram críticas amarguradas e psicológicas, como no filme alemão “O Barco – Inferno no Mar” (Das Boot) onde o diretor Wolfgang Petersen retrata o inferno dos tripulantes de um submarino alemão que lutava bravamente contra navios gigantescos dos ingleses, conseguindo traduzir em imagens um suspense poucas vezes conseguido pelo cinema. Diferente do suspense de Petersen, encontramos em “Platoon” um retrato fiel das experiências que o diretor Oliver Stone viveu quando lutou no Vietnã, tudo ali, escancarado e belissimamente narrado. Quem viu, nunca esquece!

Em 1989, o mesmo Stone voltaria no tema em “Nascido em 4 de Julho”, com um Tom Cruise motivado interpretando um ex-soldado real, que após voltar para casa em uma cadeira de rodas torna-se um militante, entrando na luta para que o governo trouxesse de volta os jovens americanos que estavam no campo de batalha. Dois anos antes,“Nascido para Matar” (Full Metal Jacket) de Stanley Kubrick, explorou em sua perfeita hora inicial o absurdo dos treinos militares e a avacalhação mental que provocam nos jovens recrutas.

Da década de 90 posso destacar o drama de Guerra “A Lista de Schindler” e “O Resgate do Soldado Ryan” de Steven Spielberg. Terrence Malick dirigiu a obra prima “Além da Linha Vermelha” (The Thin Red Line) que retrata poética e inteligentemente como poucos a relação entre os soldados que são jogados, cada um com suas próprias singularidades, como gado em uma situação de extrema opressão e medo.

Destaco ainda aos que queiram se familiarizar com o bom cinema do gênero, obras como: “Band of Brothers”, “A Queda” (Der Untergang) com uma visão única e esclarecedora sobre Adolf Hitler e “Cartas de Iwo Jima” do mestre Clint Eastwood.

O bom cinema de Guerra deve sempre existir para nos lembrar de que ainda somos humanos e falíveis, porém que precisamos urgentemente caminhar rumo a evolução e a um mundo onde os argumentos e idéias soem mais alto que as balas e canhões.

Comentários (5)

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O Homem enciclopédia...esse é vc Octávio....Um poço de conhecimento e sabedoria....
Com um olhar crítico, consegue analisar várias gerações de filmes, e colocar sua opinião de maneira tão genial, e com uma linguagem gostosa.
Sua visão vai além de onde nossos olhos conseguem ver.
Parabéns por mais esse belíssimo texto.
Ítalo Vilani , março 10, 2010
Até quando terei que te dar os parabéns?
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Octavio, mais um texto em que você liga todos os pontinhos e nos dá uma visão clara do que foi o filme Guerra ao Terror, dentro de uma linha do tempo do cinema.
Parabéns!
Mirian Aguirre , março 10, 2010
Brilhante!
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Amo filmes de guerra!! Dito isso devo te dar os parabéns por ter, em pouco espaço, falado dos melhores exemplos desse filão. A gente lê um texto seu sobre filmes de terror, parece que você domina tudo, depois romance, o mesmo, Guerra...nossa, você gosta mesmo de cinema como arte! Parabéns!
Tales Rocha , março 11, 2010
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A guerra é estúpida! Se alistar é estúpido! E você é um oásis, rapaz! Os melhores filmes de guerra são os que se opôem a elas, como você disse melhor que ninguém. quem sabe o mundo mude pra melhor no futuro? Carregue essa bandeira!
José Santiago , março 13, 2010
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ana paula
Gosto bastante de filmes de guerra (herança do meu avô, que também era louco por faroestes). São a forma mais explícita de observarmos a face mais cruel e mesquinha do ser humano. Apesar da toda a qualidade das obras e da maestria de quem os concebeu, confesso que ainda me choco quando assisto a esses filmes. É incrível testemunharmos o nível da estupidez humana. Mas temos ao nosso lado amigos cineastas como Kubrick, Lean, Wilder e Coppola para nos ajudar a encarar essa verdade com mais poesia e mais esperança.
Gosto muito de Glória feita de sangue e Patton. Também cito Cruz de ferro, Gallipoli (com Mel "nunca me enganou" Gibson), Tempo de glória, Esperança e glória (a infância durante a guerra) e Três Reis, dentre os recentes (desculpe-me Mrs.Bigelow).
E por falar em poesia e maestria, o que é esse seu texto em Sr.Caruso? Uma beleza, como sempre!
"...precisamos urgentemente caminhar rumo a evolução e a um mundo onde os argumentos e idéias soem mais alto que as balas e canhões." Sem mais.


ana paula , julho 25, 2010

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