Com a injusta vitória de “Guerra ao Terror”, os prêmios da Academia nos mostram um retrato de nossa sociedade hipócrita e que se esconde por trás de politicagem e falsas máscaras.
“Uma mentira dita cem vezes, torna-se verdade um dia”
Se o produtor do filme de Bigelow conseguiu pedir votos para seu produto entre os votantes da Academia, imaginem o que ele deve ter feito antes, para conseguir essa indicação...e o pior foi a argumentação do sujeito: Votem no nosso filme, ele é pobrinho, não votem no outro multimilionário...só falta criarem um serviço de cotas para os próximos anos...vergonhoso!
A festa desse ano foi uma triste constatação do caminho que a sociedade está seguindo, rumo a um futuro nada promissor. Um evento sem brilho próprio, sem espaço para erros, completamente calculado, inclusive os resultados.
O prêmio honorário a Lauren Bacall foi mostrado rapidamente, quando merecia um clip ou algo mais emocionante. Ao mostrá-la presente no teatro, as câmeras nem ao menos procuraram o melhor ângulo, mostraram-na de longe sendo aplaudida de pé. Quando todos se viraram ao mesmo tempo e esqueceram-na, tamanha foi a frieza do ato, deu a impressão que havia um letreiro avisando: “Chega de aplausos!” Tremenda falta de respeito, pois foram astros do porte de Bacall que construíram essa indústria, que ajudaram a transformar o cinema na arte dos sonhos.
Os melhores filmes de guerra são aqueles que denunciam a estupidez humana, obras como: “Apocalypse Now” de Coppola, “Glória feita de Sangue”, “Dr. Fantástico” e “Nascido para Matar” de Stanley Kubrick, “Platoon” e “Nascido em 4 de Julho” de Oliver Stone ou “Johnny vai à Guerra!” de Dalton Trumbo. Já “Guerra ao Terror” não toma partido algum, apenas utiliza-se do cenário horroroso de uma guerra para conseguir cenas bacanas em câmera lenta. O próprio discurso da diretora ao aceitar o prêmio já demonstra a total apatia de suas intenções. Ao invés de falar contra a guerra no Iraque, contra o alistamento de jovens que mereciam muito mais que apenas servir como peões de um governo corrupto, dando suas vidas para que daqui a alguns anos vejamos os “vilões” da história apertando a mão dos “bonzinhos” por puro interesse. Bigelow preferiu dizer que espera que todos eles honrem a nação e voltem sãos e salvos para casa. Ex-senhora Cameron, esses jovens nem deviam ter se alistado!
“Avatar”, “Bastardos Inglórios” e “Preciosa” são obras que nunca irão enferrujar com a ação do tempo, pois seus temas são atemporais, tal qual os melhores filmes vencedores da categoria no passado, como “Casablanca”, “Lawrence da Arábia”, “Ben-Hur”. Já “Guerra ao Terror” fala sobre uma semana na vida de soldados no Iraque. Não é como “Platoon” que utilizou o Vietnã como alegoria para algo maior, o filme de Bigelow é um documento de algo que acontece atualmente, sua narrativa é fraca e vale tanto quanto um especial do “60 Minutes” sobre o assunto. Daqui a 30 anos, a obra já terá perdido todo o seu valor enquanto “Bastardos Inglórios” e “Avatar” continuarão sendo citados, tal qual hoje falamos de Indiana Jones e esquecemos completamente de “Carruagens de Fogo”.
O Oscar de direção nunca havia sido dado a uma mulher, e Bigelow apareceu na hora certa e serviu como a “laranja” perfeita para esse serviço. Muitas outras mulheres já dirigiram com muito mais competência e não receberam a estatueta, como a própria Barbra Streisand que lhe entregou o prêmio.
Ao favorecerem o marketing político em detrimento da real qualidade, a premiação continua bravamente a seguir seu caminho rumo ao total descrédito.
Comentários (9)
RSS feed CommentsEssa era a análise que eu esperava!!!!
Concordo contigo em tudo, acho que o Oscar caminha para a perda de seu charme, contra tudo o que ele representava. Desde a vitória absurda de Shakespeare apaixonado que eu também não achava tão injusto esse prêmio!!
Parabéns pelo ótimo texto!!
Parabéns!!!
oscar=marmelada!!
Adorei a sua menção ao sistema de cotas...é bem por aí mesmo!
Bravo!!!!!!
Li seu texto duas vezes pra passar a raiva
Época boa aquela que os filmes melhores ganhavam,né?
uma vergonha
...
Como o Octávio citou num outro blog,a premiação desconhece o senso da palavra "justiça" e vem cometendo erros atrás de erros a cada novo ano.Está cada vez mais se tornando uma premiação vazia e que deve ser pouco levada a sério.Se continuar assim nos anos posteriores,deixará de ser uma premiaçao disputada pra ser só mais uma entre tantas que acontecem por aí.

Essa marmelada vai institucionalizar a falta de paixão que a Academia confirma a cada ano que passa.
Colin Firth muito mais que Jeff. Avatar sem dúvida, pela opinião dos expectadores e por tudo o que é como filme, merecia muito, muito mais. Sandra Bullock que parece um picolé de chuchu, sem sabor (apesar de ter estado linda na cerimônia), sem falas arrebatadoras, interpretando ela mesma mais uma vez! E a diretora de Guerra ao Terror com seu time que, ao subir no palco, mais pareciam querer gritar: “como foi mesmo que ganhamos tudo isso se não estamos à altura desses prêmios todos?” Isso estava na linguagem não-verbal de cada um deles ao final da cerimônia.
Gostei das premiações do melhor filme estrangeiro, de animação e também da melhor trilha sonora, mas no geral, foi frustrante e apoio seus comentários 100%. Obrigada por representar sempre tão bem as nossas alegrias e frustrações através de seus textos.