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Ausência de Ousadia

Seria a falta de verba o que limita a criatividade dos cineastas brasileiros? Essa desculpa poderia ser aceitável nos anos 60 ou 70, porém hoje possuímos capital para bancar uma produção memorável, mesmo que nos moldes do cinema independente do exterior. Os males dos quais padecem nossos cineastas e produtores são o medo e a total ausência de ousadia.

 

 

Quando os americanos produzem um remake de algum produto asiático ou espanhol, demonstram o orgulho ferido por não terem sido capazes de criarem algo naquele nível, praticamente um atestado de incompetência.

Quantos filmes brasileiros os americanos imitaram? Que eu me lembre, houve apenas um remake de “Dona Flor e seus Dois Maridos”, intitulado “Kiss me Goodbye” (1982), com direção de Robert Mulligan e com o recentemente oscarizado Jeff Bridges. Existem remakes americanos de filmes argentinos, espanhóis, mexicanos, japoneses, chineses, italianos, franceses, russos, alemães, mas apenas um brasileiro! Isso é motivo de orgulho? Ou uma constatação do quanto o nosso cinema é irrelevante e mal preparado?

O cinema independente americano feito sem muita verba conseguiu criar obras de forte apelo popular, como “Donnie Darko” e “Juno”. Os italianos no pós-guerra, sem dinheiro nem pra bancar atores, criaram monumentos à arte como “Ladrões de Bicicleta” e “Roma, Cidade Aberta”, os jovens franceses da Nouvelle Vague  seguiam seu lema: Pouca verba, uma câmera na mão e muita criatividade, eternizando obras como “Os Incompreendidos” e “Acossado”. Aqui no Brasil, Glauber Rocha imitou a fórmula dos franceses e é tido como um gênio, mesmo que seus filmes não consigam ultrapassar a fronteira, enquanto o talento de Truffaut entregou-se nas mãos de cinéfilos do mundo todo!

E quanto aos heróis? O mais próximo que o Brasil chegou foi com o Capitão Nascimento de “Tropa de Elite” e mesmo assim, o medo irá impedir esse ótimo personagem de alçar vôos mais altos. Se fossem os americanos, já estariam criando um filme solo para ele, seu rosto estamparia camisetas e poderia virar um ícone como o Rambo, Shaft ou Dirty Harry...não, os produtores brasileiros são muito íntegros e comprometidos com a arte, riem da cara do glamour estrangeiro com ar de superioridade, mesmo que não consigamos ter competência nem para promover uma simples premiação (nos moldes do Oscar), transformando esses raros eventos em uma coleção de gafes.

Quando será que iremos assistir um filme de terror brasileiro que nos dê medo? Apenas José Mojica Marins teve a coragem de criar um personagem nesse filão e conseguiu a glória no exterior, reconhecido mundialmente por seu “Coffin Joe”. Ele representa a essência do gênero, uma pessoa ousada e sem medo de falhas.

Os cineastas brasileiros são medrosos, porém escondem o incrível pavor que sentem por trás de uma fachada de pseudo intelectualismo, sempre analisando os americanos como uma “raça vendida”, “porcos capitalistas” que lotam nossos cinemas com blockbusters acéfalos...esquecem de mencionar que são extremamente inteligentes, pois são essas obras comerciais que enchem os cofres de sua própria indústria e que viabilizam a produção desse cinema icônico que permanece no topo desde sua criação. Os brasileiros não tem indústria de cinema, tem indústria de novelas!

Ousadia é a alma do negócio e enquanto o nosso cinema se nutrir dos tiroteios nas favelas, das brigas de casais, do sexo pelo sexo, dos teatros filmados e das comédias popularescas que já nascem datadas, iremos continuar com essa filosofia de “dono da bola”: A bola é minha, se ninguém quiser jogar, posso brincar sozinho...público qualitativo para quê? Os nossos cineastas medrosos sorriem em seu egoísmo e contam os lucros advindos do cinema simplista, enquanto a platéia aplaude os estrangeiros e sua maravilhosa fábrica de sonhos. E la nave va...

Comentários (7)

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Não é preconceito...
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Não sou preconceituoso quanto ao cinema Brasileiro, mas tenho absoluta certeza que o nosso cinema só sabe fazer bem feito COMÉDIAs, cito entre elas No auto da compadecida,Lisbela e outros bons filmes nesse tema.Quanto a outros temas nõa sabemos e nem temos criatividade para fazer, ou enveredamos pelo lado do sexo, ou violencia, naõ tive coragem e nem terei de assistir Tropa de Elite, sei que iria detestar, não é um filme, é a realidade de nosso dia a dia, que vemos nos jornais e tvs, então para quer ir ao cinema?..Triste cinema Nacional.
Roberto Carvalho , março 15, 2010
Concordo!
0
Adorei sua maneira de escrever,concordo com tudo o q disse.
Cinema nacional é medroso e finge ser intelectual explorando as mazelas do povo.Nota 0 para o nosso cinema e nota 1.000 pra vc!!
Amanda Vieira , março 15, 2010
Revoltantemente verdadeiro!
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Octavio, é triste mas verdadeiro esse panorama que você pintou sobre o nosso cinema. Acho que nunca havia lido algo assim tão sem pudores sobre o tema, ainda mais vindo de um jovem, que já demonstra um conhecimento enorme, até de psicologia presumo, pois sua idéia de medo dos cineastas é algo que eu já havia notado também, mas tinha dúvidas.
Você ter lembrado das premiações foi muito interessante. Lembro até hoje da bizarrice que foi o um prêmio televisionado pelo Canal Brasil, onde os vencedores não falavam nada, subiam ao palco com cara de tristes e diziam apenas obrigado, entre outras gafes muito comentadas na época.
Acho que sua revolta nasce do tom de superioridade que os nossos cineastas falam quando menosprezam o cinema americano, é bem como você falou. Como se nós pudéssemos falar algo! Cresça e apareça, cinema nacional! Parabéns pelo texto!
Regiane , março 16, 2010
FILMES=NOVELAS
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Para mim o Brasil está acostumado a fazer filmes como faz novelas!!!Não sabe fugir dessa mesmice e usa sempre os temas sociais(drogas..violência..
sexo e comédias melodramáticas)
Não acho que ousadia seja o termo completo
Falta a eles MUITA TÉCNICA e Patrocinadores para
que consigam dar ASAS A SUA IMAGINAÇÃO.
Lógico que OUSAR é tudo mas não nessa sociedade
falso-futurista!!
CRISTINA DINIZ , março 16, 2010
Concordo...
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Criatividade até acho que eles têm mas esbarram na mesmice por medo de ousar...Já paguei para ver filmes nacionais que me enojaram .Joãozinho Trinta é que falava : pobre gosta é de ver riqueza...Nossos filmes são , em sua maioria , pobres de história , pobres de cenários , pobres de som , pobres em diálogos ( este ,então ,é de matar!)...uma tristeza !
Queremos e merecemos mais qualidade !!!
Vc ousa ,escrevendo...Porque eles não ousam , fazendo ???
Adorei seu texto !
Marilene , março 16, 2010
sem comentários...
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Este , nem quero comentar...
A grande maioria de nossos cineastas são adeptos do PPBS...
Partido dos Peitos , Bundas e Sexo !!! E histórias sem nexo...Muita pobreza , lixo e sarjeta...
Aplausos para você , Octavio !!!

Elisa , março 18, 2010
Bravo!!!
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Texto espetacular!!! Você merece a fama que tem!
Poucas pessoas físicas e envolvidas nessa área, teriam o topete de falar isso tudo sem medo de represálias dos prováveis milhões de pseudo-intelectuais indignados com o que vc afirma...e é a mais pura verdade.....the awful truth....parabéns!!
Mauro Lira , março 21, 2010

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