Assistindo mais uma vez a obra de Christopher Nolan que balançou as estruturas da Sétima Arte em 2008, pode-se constatar o brilhantismo presente em cada momento desta aventura épica, uma fábula moral atual e pungente que já entrou para a história da indústria cinematográfica por genuíno merecimento.
Não apenas uma adaptação de um personagem dos quadrinhos, mas um épico de ação com estilo próprio. Realmente o diretor Christopher Nolan definiu e redefiniu o herói de vez para o cinema em “Batman - Cavaleiro das Trevas”.
O ritmo é ditado pelos atos do cruel e inconseqüente Coringa de Heath Ledger, porém ele é apenas um “MacGuffin” (expressão criada por Hitchcock, designa uma peça que motiva os personagens e o desenrolar da história, mas que não é seu ponto principal) na trama. O foco do roteiro assinado por Nolan e seu irmão Jonathan está na relação entre o símbolo do vigilante e o que ele representa para a população, assim como a ascensão do promotor público Harvey Dent de Aaron Eckhart, um homem que é considerado um herói sem capa e máscara.
A certo ponto o filme questiona o real valor do altruísmo, sem que para isso o tom se torne bobo ou forçado. A mensagem é passada da maneira mais profunda, sempre respeitando (por vezes até superestimando) a inteligência do espectador.
Christian Bale não se apaga perante os seus colegas (como foi o caso com Michael Keaton no filme de 1989) e entrega um Bruce Wayne correto, que fala muito mais com o olhar. Já como Batman, graças aos melhores ângulos de câmera, suas lutas agora são mais visíveis que no filme anterior.
Heath Ledger destila durante todo o filme uma insanidade tão próxima do maligno, que deixaria o personagem Jack Torrance (Jack Nicholson de “O Iluminado”) com medo.
O elenco de apoio constrói um alicerce sólido, com destaque para a sobriedade genial de Michael Caine como Alfred e Gary Oldman, um ator tão bom que consegue sair de foco em certos momentos, para que os que contracenam com ele possam brilhar. Seu James Gordon é um homem da lei tão comprometido com a verdade, que nos dias de hoje torna-se tão crível quanto um homem vestido de morcego.
Levando-se em consideração que o sub-gênero “Adaptações dos Quadrinhos” tornou-se um filão lucrativo para os produtores da Sétima Arte , o público tem recebido uma super-exposição de heróis nos últimos anos. Diretores de qualidade comprovada se juntaram a outros menos expressivos. Bryan Singer e Sam Raimi , revitalizaram os X-Men e o Homem Aranha respectivamente. Ambos os filmes foram sucessos de público e crítica , mas é inegável que os roteiros de ambos foram construídos para saciar uma audiência jovem e sem muita cultura cinematográfica. Os mais criteriosos preferiram as continuações da equipe dos mutantes e do herói aracnídeo. É para este público que Nolan criou sua visão pessoal do mito Batman.
Em “Batman Begins”, a equipe criativa fez o que Bryan Singer não conseguiu com seu “Superman Returns”, atualizar um mito universal com maturidade e respeito na medida certa. Nolan teve as mesmas intenções de Ang Lee em seu “Hulk”, mas não se rendeu às pressões do estúdio. Enquanto o Hulk de Lee teve vida curta e já foi re-atualizado (para pior, devo salientar), a idéia de Christopher Nolan chegou em seu ápice criativo nesta segunda incursão.
"O Cavaleiro das Trevas" é o filme que os fãs do personagem criaram em seus sonhos , uma visão adulta e consciente sobre a importância de se crer em algo , a dualidade de nossas decisões e aceitarmos as responsabilidades pelas mesmas.
De forma geral o projeto surpreende até o mais descrente dos cinéfilos. É entretenimento de alto nível que faz pensar entre uma pipoca e outra. Os méritos são todos de Christopher Nolan, que mostra ser possível aliar aventura com questionamentos profundos da alma humana. Imagine um filme de Bergman ou Antonioni, insira uma meia dúzia de cenas de ação bem orquestradas e terá uma idéia da mensagem que o diretor quis nos passar.
Comentários (4)
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Agora,se falar que é a mais perfeita adaptação dos últimos anos,aí sim posso concordar,pois foi um filme muito bem dirigido,roteirizado e com um show de interpretação de todo o elenco.Claro,o Ledger rouba a cena do começo ao fim,mas os demais não se ofuscam e dão um show.Destaque para o Eckhart,que entrega um personagem tão bem construído quanto o próprio Coringa.
Agora amo ...
Os filmes anteriores eram escuros demais e muito infantis para o meu gosto.
A comparação da interpretação do Heath com o "Iluminado", deixando-o com medo , foi espetacular !!
Você disse tudo !!
Arrasou !!
...
Aliás, brilhantismo é a palavra que se encaixa como uma luva na descrição do texto acima. Dificílimo é tentar postar algum comentário que não seja chato e sem graça perto de sua escrita perfeita, queridézimo Octávio.

O Heath dá um show a ponto de nem lembrarmos mesmo quem é o ator atrás da maquiagem. Ficamos compenetrados em sua maldade e loucura e o filme ainda nos surpreende quando Harvey Dent, tão amargurado e vingativo após o acidente, mostra-se um outro vilão na trama. Mal conseguíamos, eu e meu filho, no cinema, pensar em pipoca, tão empolgante o filme é.
Parabéns pela crítica e trazer no seu texto, detalhes e sutilezas importantes deste filme.
Tão diferente de Superman Returns que foi um filme mega monótono... merece uma crítica aqui no blog também. A beleza do Superman não foi suficiente para me manter acesa... dormi no cinema.