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Bilheteria no espaço

Alex Kurtzman fala ao Cinema.com.br sobre a ressurreição de Star Trek e conta detalhes da versão em DVD.
 
 Há um trio idolatrado na Hollywood moderna: J.J. Abrams, Bob Orci e Alex Kurtzman. Juntos realizaram o impossível: transformaram Star Trek num sucesso de bilheteria pela primeira vez na história. Agora eles estão envolvidos em muito mais do que a ressurreição da obra de Gene Roddenberry. Aquecendo os motores do lançamento dos DVDs de Star Trek e Transformers 2A vingança dos derrotados, que chegou às lojas americanas nesta semana, Kurtzman conversou com o Cinema.com.br em Los Angeles para falar sobre extras, expectativas para o segundo longa estrelado pelo capitão Kirk e aproveitou para comentar Distrito 9.
 

Como vocês contribuíram para os extras dos DVDs de Star Trek e Transformers?

Alex Kurtzman: Conversamos muito sobre as experiências, mas os dois filmes documentaram absolutamente tudo desde as primeiras reuniões até o dia do lançamento. Cresci num momento com pouca informação, só havia um livro que ensinava a fazer roteiros, por exemplo (e ele só ensinava estrutura). Hoje existem comentários de DVD, cenas extras etc. Pensando nisso, tentamos colaborar ao máximo e abastecer as pessoas com a maior quantidade de informações possível.

Como você aprendeu, então?

Escrevendo mal por um tempão!

Leonard Nimoy impressionou todo mundo. Qual foi a relevância dele na criação do roteiro?

Total. Não teríamos feito esse filme sem ele, desde o momento em que reinventávamos essa série e precisávamos nos manter fiéis a ela. A bênção de Nimoy era fundamental. O anuncio de sua participação funcionou como um tipo de aval para o público, pois transmitia a seguinte mensagem: “Olha, agora é possível fazer a transição e estou aqui para ajudar”.  Só começamos a escrever quando ele aceitou. Confesso que foi esquisito conversar com Spock sobre a, humm, história de Spock. Foi bizarro dizer para ele: “Então, aí seu planeta explode! Legal, né?!”.

 

Trabalhando em tantos projetos simultaneamente, como você e Bob Orci conseguem sobreviver e ainda fazer dar certo?

Aprendemos muito com a TV sobre ser multitarefa. Basicamente, escrevemos um novo episódio, enquanto outros quatro em estão nas fases de edição, finalização e produção. Ou seja, trabalhamos com cinco capítulos de uma só vez em uma semana. Isso cria uma disciplina inevitável e bastante produtiva. O fato de trabalharmos sempre em conjunto ajuda muito em vários aspectos. Temos muita dinâmica, mas o fato de ter tantas opções simultâneas ajuda a resolver problemas como bloqueios ou dificuldades em determinadas situações. Caso algo assim aconteça, podemos facilmente mudar o foco para outra atividade e voltar umas horas mais tarde com mais tranqüilidade e, normalmente, cabeça mais fresca e apta a resolver os entreveros. Também gostamos de envolver muita gente no processo, para nada parecer arbitrário. Balanço sempre é fundamental nesse trabalho.

 

Como vocês estão encarando o próximo filme de Star Trek? Vai ser uma continuação direta ou poderá ter mais liberdade criativa?

O importante aqui é compreender a importância de um “filme 2” relevante. Pensar nesse roteiro como algo único. Ele precisa se sustentar sozinho, mas é fundamental ter condição de impressionar tanto quanto o primeiro. E é até mais fácil, pois o “filme 1” define as bases para que o próximo desenvolva mais personagens e seus universos. Há tantos exemplos disso, como a própria amizade de Kirk e Spock ser testada em A ira de Kahn, ou os sacrifícios que o Super-Homem precisa fazer por amor em seu segundo filme, e toda aquela carga emocional de O Império contra-ataca. Analisamos muitas dessas seqüências que amamos para entender suas motivações e estruturas. Além dos que citei, assistimos a Aliens – O resgate e O Exterminador do Futuro, entre outros.

 

Quanto de Star Trek foi trabalho e quanto foi satisfação pessoal? Muita gente daria a vida pela chance de escrever esse filme...

Escrever Star Trek foi muito emocional. Além de tratar desses personagens icônicos, mas há uma responsabilidade imensa para reapresentar esse pessoal a uma nova audiência. É o mesmo que pegar o brinquedo da infância de tanta gente e não fazer besteira com ele. Nos trancamos num hotel checando cada linha, cada referência, cada conceito por meses para evitar qualquer escorregadela. Os personagens têm tanta importância no subconsciente que eles se manifestam subliminarmente, na maioria das vezes. Conhecer a essência do personagem ajudou demais.

 

Sobrou muita coisa em termos de ideias ou conceitos? Algum elemento relevante ficou de fora?

Não, tudo que queríamos colocar no primeiro filme entrou!

Do modo como você fala parece haver muita certeza no processo criativo, assim como grande confiança nos atores, especialmente Shia Labeouf, de Transformers...

Já trabalhamos bastante com Shia, então o ritmo de atuação dele é familiar e sabemos seus estilos prediletos. Isso facilita muito o processo de imaginar personagens e situações para ele. O que é diferente de saber quem será o ator de um determinado papel. No caso dele há um conhecimento maior de como ele trabalha, não apenas de seu físico ou outros trabalhos. E aquele garoto é rápido demais para entender roteiros, nunca vi igual. Ele tem um “alarme de clichês” e funciona. Se escrevermos algo que ele não considera cafona, ele não faz. Precisa ser autêntico, então sabemos exatamente o que ele vai procurar numa cena e isso guia bastante o trabalho.

 

Transformers 2 – A vingança dos derrotados dividiu opiniões e foi um clássico exemplo do “ame ou odeie”. Criticaram até mesmo a duração do filme, entre outros elementos. Isso foi uma surpresa?

É impossível saber o que vai funcionar com as pessoas e generalizar não se aplica a cinema. Mesmo filmes de pouca bilheteria podem ter seu valor redescoberto anos depois. De qualquer forma, vi muita gente reclamando da duração, mas, por exemplo, meu sobrinho de 12 anos pirou e veio reclamar pelo fato de não ter sido tão longo quando ele gostaria. Depende da percepção. E não é por que esse ou aquele site apedrejaram o filme, que ele, automaticamente, se transforma nessa imagem negativa. Cada público reage do seu jeito. Michael [Bay] tem seu estilo de filmagem e ritmo de edição, logo, se ele achou ideal trabalhar com aquela duração, que seja. Ele sabe o que faz e acho que tem mais experiência  doque os reclamões de internet.

Como a trilha sonora se incorpora nos seus roteiros?

É a primeira coisa. Meu carro está carregado com CDs de trilhas sonoras. Só escuto isso. É meio esquisito, mas parece um vício. Acho que tenho todos os CDs do Michael Giacchino.

Você está entre as poucas pessoas que têm fama de surpreender os outros com seus filmes. O que surpreende você?

Distrito 9 me surpreendeu muito. Uma das razões foi a estratégia arrojada de marketing. As propagandas não refletiam o filme a que assisti, fugiu do óbvio. Se tivesse lido esse roteiro, nunca teria acreditado na história. De jeito nenhum que algum estúdio aprovaria essa ideia, que é muito legal, mas impraticável. E eles realizaram de forma tão brilhante que caiu a ficha sobre minha reação: encarei a história como avaliador de roteiros com o pensamento dos estúdios, não apenas como espectador. Distrito  9 deu uma chacoalhada e me lembrou que existe vida além dos estúdios e que ainda é possível fazer filmes de gênero fugindo da obviedade. É a prova de que não existe fórmula certa para dar certo na ficção científica.

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