Críticas da semana

"Fui o primeiro a recuperar o 3D"

Seg, 08 de Fevereiro de 2010 17:55 Por Fábio M. Barreto, de Los Angeles

Sem maiores pretensões, Robert Rodriguez se tornou um dos maiores cineastas de Hollywood. Responsável, entre outros, pela série Pequenos espiões e a adaptação de Sin city, o texano já fez até dupla com Quentin Tarantino, em Grindhouse. Das animações nas pontas dos cadernos e lançamentos no México, Rodriguez se tornou ícone do cinema independente, angariou — muitos — fundos e agora se lança às produções. Em entrevista ao Cinema.com.br, ele fala sobre o penoso início de carreira, explica os projetos atuais — a desistência de Barbarella e as filmagens de Machete — e sai em defesa do 3D e dos remakes.


Ser diretor era sonho ou aconteceu sem querer?

Robert Rodriguez: Nunca pensei em ser um diretor em Hollywood. Não havia referência de diretores texanos. Ninguém tinha feito isso antes, então não foi um objetivo. Sempre fiz filmes para mim. E pensava ser capaz de viver de modo tranquilo com isso por lá mesmo. Quem sabe ganhar um concurso ou algum tipo de prêmio, mas nunca especulei muito em termos de vir trabalhar em Los Angeles. Desde a quarta série, já fazia algo semelhante a filmes com aqueles desenhos sequenciais na ponta do caderno ou num bloco de notas. Aí usava uma máquina para fotografar cada desenho. Viciei nisso. Quando tinha 12 anos só conseguia pensar nisso.

Então sempre levou isso bem a sério, certo?

Demorou um pouco para se tornar algo mais sério, pois só pude me inscrever nos concursos mais tarde. Filmava tudo em vídeo e ninguém aceitava material em VHS, afinal o cinema é feito em película. E, juro, não tinha a menor condição de gastar com material e equipamento.  Quando pintaram os primeiros prêmios de VHS, as coisas mudaram. Ganhei vários prêmios e me empolguei. Mas outro problema surgiu: alguém poderia ver esse material e querer me contratar, mas o fato de só ter dirigido curtas poderia ser um problema. Por isso resolvi filmar El mariachi, que, basicamente, foi um experimento para saber se eu conseguiria contar uma história em longa-metragem. Aquele filme nasceu para ficar perdido em alguma prateleira de locadora mexicana de terceira categoria e por isso gastei o menos possível. Se soubesse que alguém assistiria, teria gastado uns US$ 5 a mais.

Mas, naquele momento, tendo feito tanta coisa para VHS, já era possível ter noção de que a prática serviria bem e o filme teria chances?

Passar anos fazendo curtas — entre os oito e 12 anos de idade— é como aprender a tocar guitarra. Você treina bastante, pratica e pratica mais ainda até que desenvolve seu próprio estilo. Fiquei bom naquela linguagem curta e estava ganhando prêmios, mas sabia que precisava aprender também a fazer os longas-metragens. Mas precisava fazer isso sem acabar com meu tempo e prejudicar o resto do desenvolvimento. Então bolei um plano bem simples e sólido: todo mundo diz que você deve escrever o mesmo roteiro quatro vezes jogar fora e filmar o quinto tratamento. Não concordo com isso. Aliás, quem tem tempo para ficar tanto tempo pensando na história com fins meramente de treinamento? Por que não escrever uma vez, filmar, iluminar, editar e aí jogar fora? Fazendo isso, é possível aprender todo o processo e se treinar em diversas situações diferentes. Cada uma delas é interligada, então uma dificuldade na edição pode te ajudar a corrigir um problema do roteiro e vice-versa. E o jeito de "jogar fora" foi desovar no mercado de vídeo mexicano.  Quais as chances de alguém ver? E quantos Rodriguez existem por lá, de qualquer jeito? Podia fazer qualquer coisa com custo mínimo e aí surgiu essa idéia do sujeito com um estojo de violão cheio de armas. A idéia era fazer uma trilogia ao estilo Três homens em conflito (The good, the bad and the ugly, no original) e o dinheiro de cada um dos filmes pagaria pela realização do próximo. Terminando os três, conseguiria montar um demo reel com as melhores partes e aí sim poderia começar a pedir dinheiro para os estúdios. Nesse ponto eu seria capaz de realizar meu primeiro filme independente norte-americano e começar a disputar os principais festivais. Mas nada disso aconteceu, já que o primeiro filme de teste acabou sendo lançado e fez sucesso. Aí notei que você pode fazer um filme no quintal se tiver uma boa ideia. Meu conceito mudou. Até tentei mostrar para o estúdio que aquilo não era um filme, que eu não tinha equipe e etc. Foi divertido. A gente filmava um pouco, aí mudava o ângulo, filmava mais, atravessava a rua para dar a impressão de diversas câmeras. Era uma só. Isso sem contar a escada que usei para fazer de conta que tinha um guindaste. Foi tudo faz de conta. E em 14 dias de filmagens.

Isso mudou?

Continuamos fazendo isso até hoje. Estamos filmando Machete e o estilo é o mesmo. Subindo escadas, simulando ângulos de câmera. A maioria das tomadas é filmada de baixo para cima ou usamos caixas em alguns momentos para garantir a figura ameaçadora do Danny Trejo. Ele ri muito toda vez que se vê na tela e outro dia veio falar comigo: "Todo mundo acha que sou o sujeito mais barra pesada do mundo por sua causa!". Filmamos muitas cenas em câmera lenta também e ele parece mais um dinossauro se aproximando do que um matador mal encarado.

Por que desistiu de Barbarella?

A ideia é brilhante e vai acontecer num clima meio heavy metal, como se fosse um Star wars proibido para menores. Mas as filmagens vão acontecer na Alemanha por causa dos impostos e benefícios fiscais, por isso precisaria ficar lá por cerca de um ano. Optei por ficar por aqui por causa dos filhos. Eles crescem rápido demais e não gostei da ideia de perder todo esse tempo da vida deles.

Como estão seus trabalhos como produtor?

No momento estou produzindo um novo Predador. Já começamos a filmar e vamos lançar no ano que vem. Fui apresentado a essa ideia há muito tempo, mas, como tudo acontece em outro planeta, cheio de predadores, não era algo realizável. Recusei. Hoje quase tudo é possível e o projeto voltou para me assombrar. Inclui uma série de ideias na história.

Vai ser uma sequência ou uma reimaginação?

Não é um reboot. Se nenhum dos outros filmes existisse, esse roteiro funcionaria bem como uma continuação para o primeiro. Tem muita coisa para ser explorada na mitologia dos predadores, então tenho certeza de que ninguém vai se ofender com ele.

Apostar em marcas e nomes consagrados como esse representa falta de imaginação, insegurança financeira ou real necessidade de revigorar os clássicos?

Hoje custa muito mais para atrair a atenção do público. Quando Tubarão estreou só existiam três canais de TV nos Estados Unidos, então eles anunciaram pela primeira vez e todo mundo foi ver. Isso não funciona mais. Nomes fortes facilitam esse processo especialmente com o público mais disperso em termos de atenção por causa de filmes, videogames, vídeos e etc.

Mas os resultados criativos ficam a desejar, não?

Depende. Isso tudo enfatiza como os roteiros e personagens têm que ser maleáveis. Mas tudo custa muito, especialmente o marketing, então fica mais arriscado para os estúdios. Pelo aspecto de negócios, que eu entendo e concordo plenamente, não é tão simples encarar uma ideia totalmente nova no meio dessa crise econômica. É uma batalha meio inglória que acontece, mas com menor frequência que antigamente. Por isso tento fazer meus filmes com o menor custo possível, sempre. Criatividade resulta diretamente das equipes envolvidas.

Como você vê o 3D: linguagem ou truque?

Fui o primeiro a recuperar o 3D com Pequenos espiões e tive que pagar pelos meus óculos! Originalmente, a segunda metade de Um drinque no inferno deveria ter sido feita em 3D. Prestando bastante atenção no filme, dá para perceber o enquadramento prontinho para isso. Muita coisa chegando perto das lentes e etc. Quero continuar a trabalhar com 3D e acredito muito nisso. Vai dar certo. Cada filme vai dizer se o caminho é o da linguagem ou do truque. A tecnologia permite que as duas coisas aconteçam, então o uso é bem democrático.

 

Veja o trailer de Machete, que estreia em 16 de abril nos Estados Unidos:

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Última atualização em Seg, 08 de Fevereiro de 2010 18:06
 

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