Críticas da semana

Entrevistas

O ímã da polêmica

Sex, 12 de Março de 2010 17:00 Marina Shimamoto

Ao olharmos para as recentes produções nacionais, é notório que se baseiam em algumas fórmulas pré-concebidas. O cinema brasileiro está calcado, atualmente, nos subprodutos (que partem originalmente da televisão), em “novelões” transportados para a telona ou, com raras exceções, em textos e roteiros inventivos que marcam o imaginário social e repercutem. Neste caso, pode-se citar Central do Brasil, Mulher Invisível, Carandiru, Cidade de Deus e Meu Nome não é Johnny. Este último, repercutiu justamente pela imprevisibilidade da sua recepção junto ao público.

O inventivo diretor do longa, Mauro Lima, é polêmico (e gosta de ser). Em entrevista ao cinema.com.br Mauro fala de “Reis e Ratos”, produção prestes a estrelar nas salas brasileiras que conta com elenco estrelado e filmada em tempo recorde. Também comenta sobre sua vocação para temas fortes – segundo ele, certos assuntos são fixações desde criança. Mauro Lima atmbém adianta sua próxima produção: vai falar sobre a vida de Tim Maia.

Dirigir 'Tainá 2' e depois seguir para 'Meu Nome Não é Johnny' representou um salto gigantesco. Quando surgiu o convite para realizar este trabalho você já conhecia o livro? De que maneira você se preparou para este trabalho?

Mauro Lima - Na realidade não me pareceu um salto gigantesco. Foram filmes de orçamento semelhante, ambos da mesma distribuidora, Sony/Columbia Tri Star, no caso. A diferença foi mais quanto à pressão na fase de produção. Tainá é como um produto ou, pelo menos, é assim que o produtor acredita, então tinha aquela coisa toda de respeitar cada virgula do roteiro, não ter corte final, enorme pressão na escolha do elenco, inúmeros limites nas decisões artísticas, enfim...como se tudo fosse uma infalível franquia do Mcdonalds. Além disso tudo, tinha a coisa de filmar em plena selva amazônica, com uma equipe imensa e equipamento embarcados. Tudo previa um 'Apocalypse Now' por dia.

No caso de 'Meu Nome não é Johnny', apesar de ser diretor contratado, a minha situação era bem confortável. Eu tinha escrito o roteiro e a produtora do filme, Mariza Leão, procurava mais um parceiro em quem pudesse confiar do que alguém pra executar o filme sob uma 'batuta' contratual. Hoje, olhando em retrospecto, vejo que o excesso de controle do produtor em Tainá foi um tiro no próprio pé (dele, no caso). Ele podia ter tido um filme muito melhor e com mais público.

Quando a Kiki Lavigne, da Sony, me falou que eles estavam envolvidos na produção do 'Meu Nome não é Johnny' eu já conhecia o livro, até já havia comprado, porém não tinha lido ainda. No dia seguinte li o livro e telefonei pra Mariza. Pouco tempo depois fui contratado.

Foi mais difícil trabalhar com um enredo que se baseia em personagens reais? Como foi seu encontro com o João Estrella, o Johnny?

Mauro Lima - O personagem ser real é um fator limitante no caso de um filme sobre alguém conhecido do grande público, como Cazuza, Ray Charles, Piaf ou Bobby Kennedy. Esse não era meu caso, filmar a biografia de alguém quase anônimo é, praticamente, filmar um roteiro original. O ator não precisa ter o cabelo igualzinho, os olhos da mesma cor ou ter o mesmíssimo timbre de voz. Eu já conhecia o João através de amigos da música, já tínhamos até trabalhado juntos. Durante o processo de feitura do roteiro, bem como de filmagem, nos falamos muitas vezes e a colaboração dele foi fundamental. Ele lembrou de passagens e detalhes que não constavam no livro, me esclareceu inúmeras dúvidas e sempre ajudou de modo solícito e pouco limitador.

Você toca baixo, tem uma banda, certo? E ouvi dizer que já tocou com o Michel Gondry, como foi isso?

Mauro Lima - Eu toco guitarra, um pouco de baixo e piano. Quanto ao Michel Gondry, tocamos juntos em uma festa, mais o André Moraes e uma namorada inglesa dele (Gondry) que é cantora de Folk. Foi curioso, mas ele toca bateria muito mal. Tive que 'correr atrás' dele, ora atrasava, ora adiantava, cada virada era um sobressalto.

Voltando a temática das drogas, elas tem sido recorrente no cinema brasileiro. A escalada do tráfico, o aumento do uso de drogas mais pesadas e a preocupação governamental com o assunto influenciam roteiristas e diretores a discutirem abertamente o tema em suas obras?

Mauro Lima - Eu, pessoalmente, acredito que as influências vêm de sucessos cinematográficos de quaisquer temas, desde que recém acontecidos. Assim com filmes sobre violência urbana, sobretudo em favelas, comédias românticas a cerca de fenômenos para-normais, filmes de conteúdo espírita e assim por diante. Isso se aplica não só à temática como à estética também.

Pense na câmera 'nervosa' na mão, longuíssimos planos sequência, luz de documentário, cenas inteiras sem música. Quanto você não viu de tudo isso depois do sucesso de 'Cidade de Deus'? Filmes as grosas com esse conceito 'realista'. Quanto ao tema das drogas, especificamente, eu acho que vem sendo explorado como se ele determinasse o resultado de uma equação social cujo coeficiente é a violência urbana. Um pensamento que terminaria na prisão do gerente da boca de fumo, como o 'grande' responsável pela violência. A violência transcende o comércio na comunidade ou nas esquinas. Não acho que os filmes sobre o tráfico, de modo geral, estejam discutindo o assunto abertamente, talvez seja fruto de tendência ou modismo.

Há algum tempo você terminou a filmagem de 'Reis e Ratos', outro filme que promete levantar discussões polêmicas. Como surgiu a ideia para esta historia?

Mauro Lima - Queria fazer um filme de personagens, algo que me liberasse um pouco das engenhosidades e do conceito de trama mas, ao mesmo tempo, nutrindo o desejo de contar parte da história suja do país, mesmo que bastante romanceada. O golpe de 64 é um episódio que considero determinante na recente história (suja) do Brasil. Inventei uma ante-sala para a conspiração e enchi de canalhas sedutores, alienados simpáticos e sentimentais perturbados. Reis e Ratos é o produto desses desejos e fetiches.

Você acredita que o público vai ser tão receptivo com 'Reis e Ratos' assim como foi com 'Johnny'? Quais as perspectivas para a nova produção?

Mauro Lima - Fiz 'Reis e Ratos' como um filme pequeno inventado entre grandes. Algo como Soderbergh costuma fazer, cria um projeto 'leve' pra não enlouquecer esperando e sofrendo entre os pesados. Filmamos em 17 dias e, mais bizarro que isso, pré-produzimos em 15. Não é um filme pra um grande alcance de público, quero dizer, não como 'Meu Nome não é Johnny', coisa de 2 milhões e tal de bilhetes vendidos, lançamento grande, mais de cem cópias.

Ele não se parece muito com nada, não sei bem em que prateleira da locadora eu poria ele. O filme deve ter seu nicho mas espero, contudo, que vá até o osso desse nicho. O filme divertido e tem o seu potencial, está bonito e tem um elenco incrível. Acho que vai dar um pé, mas um pé certo pra um sapato específico.

Como você conseguiu juntar um elenco estrelado na mesma época para as gravações de 'Reis e Ratos'? Filmar em 17 dias favoreceu o trabalho já que se trata de uma comédia e o timing é uma questão essencial neste tipo de produção?

Mauro Lima - O elenco foi formado em algo como uma semana e contou com a animação daqueles que liam o roteiro. Obviamente contei com a sorte de aqueles atores incríveis conseguirem cavar buracos em suas agendas na mesma época. Como disse acima, não sei se chamaria o filme de comédia. Mesmo que haja muito humor nele, existe algo de soturno, de dramático e romântico também.

Você pode falar mais do que se trata seu projeto sobre o Tim Maia? O que podemos esperar desta nova produção?

Mauro Lima - Na realidade meu próximo projeto (por enquanto) é a filme-biografia do Tim Maia, baseado no livro do Nelsinho Mota. Além do livro, temos uma pesquisa fantástica que serviu de base pro livro. A Antônia Pellegrino ta escrevendo o roteiro e acho que vai ser um filme com vocação pra atrair bastante público. Entretanto, incorre naquela questão acima, a coisa de estar limitado pela figura pública e seu alcance. O Tim era uma figura singular e vou ter a tarefa de achar alguém parecido, que cante, atue e fale inglês... Moleza...

Há algum tempo você informou que trabalharia no projeto de 'Dias de Ira'. Ainda pensa em rodar o longa? Como anda os preparativos desta produção?

Mauro Lima - Por enquanto esse projeto está na fila, embora não em primeiro. O roteiro está escrito e tenho mesmo muita vontade de fazê-lo. É um livro excelente, uma reportagem completa sobre uma história inacreditável. Os contornos são de trama conspiratória muito cinematográfica, assim como os diversos temas; Política eleitoral, assassino em série, homossexualismo, preconceito, 'star system', jornalismo e comunicação de massa. E o melhor, é tudo verdade.

Falar de drogas, de conspirações em meio ao Golpe Militar no Brasil, violência, homossexualidade etc... é uma vocação sua tratar de temas polêmicos?

Mauro Lima - De fato parece que eu tenho um imã pra esse tipo de tema. Quando criança costumava cambar pra esses assuntos nas pesquisas e trabalhos de escola. Até hoje me lembro de um trabalho que tinha de fazer sobre uma matéria qualquer de revista. Eu tinha 11 anos e escolhi a notícia de um surfista que tomou uma overdose e caiu do décimo andar de um prédio no Leblon. Cocteau falava sobre seus filmes serem como imagens que via durante o sono, os meus são sobre as que me tiram o sono.

Entrevista concedido ao repórter Sérgio Vieira.

Última atualização em Sex, 12 de Março de 2010 19:17
 

A experiência de Sigourney Weaver

Sex, 12 de Fevereiro de 2010 15:27 Por Fábio M. Barreto, de Los Angeles
Em entrevista ao Cinema.com.br, Sigourney Weaver se revela mãe apaixonada, atriz engajada e mulher consciente de sua relevância por conta de papéis como Ten. Ripley, na cinessérie Alien, e, agora, a Dra. Grace, em Avatar. É a voz da experiência e a objetividade de uma carreira que passou pelos holofotes dos grandes sucessos, trilhou o caminho sólido do teatro, educou milhares com sua voz marcante e cativante.

Qual a principal arma para mergulhar numa locução de conto de fadas, de documentário ou mesmo no mundo de Pandora?

Sigourney Weaver: Fazer de conta que somos crianças novamente e se deixar encantar, aprender e maravilhar. Sem imaginação não é possível fazer nada disso.


Você costumava ler contos de fada para sua filha?
Sim. Sempre gostei de contar histórias a ela.


Ela tem alguma história favorita?

Gostamos dos livros de Dr. Seuss. São maravilhosos! Foram escritos nos anos 50 e é incrível como são atemporais.


Como você caracteriza esse período longe dos  blockbusters?

Fiz uma série de bons filmes que não tiveram uma distribuição muito boa - começando com O mapa do mundo - e, de vez em quando, tirava algum tempo para ficar com minha filha (especialmente porque eu tive uma só, e ela está crescendo). Esse sumiço aconteceu porque estava fazendo mais filmes independentes, que eram pouco vistos fora dos EUA. E, confesso, mesmo aqui dentro.


Você achou que cairia no estereótipo hollywoodiano da estrela de filmes de ação? Que em algum momento os estúdios diriam "OK, Sigourney não é mais uma estrela de ação, o que faremos com ela"?

Não acho que tenha sido vista como uma estrela de filmes de ação. Tinha feito apenas os filmes de Alien, e fiz muitas outras coisas divertidas além deles. Acho que enganei todos aqueles que me observavam para tentar descobrir que tipo de atriz eu seria, porque sempre pulava da comédia para o drama e tudo o mais. Acho que o maior desejo de todo ator é que as pessoas vejam o trabalho pelo qual você se esforçou tanto, mas, às vezes, você não consegue porque a distribuição de um filme independente é muito cara - mas mesmo assim você segue tentando, na esperança de que as pessoas possam encontrar esses filmes.


Você acha que seus papéis serviam de modelo positivo para as mulheres?

Eu nunca fui "a garota" nos filmes. Acho que isso tornou as coisas mais fáceis para mim, já que meus papéis eram sempre diferentes entre si. Sabe, histórias sobre uma mulher, não sobre um casal. Isso tornava meu trabalho mais fácil.


Você nunca foi o tipo mulherão, chamada de sex symbol...

Tudo culpa da minha mãe. Quando era pequena, perguntava a ela se era bonita e ela respondia "não, querida, você é uma garota comum".  É isso que as mães inglesas fazem, e todas as garotas britânicas que conheço têm histórias parecidas. Mas também há muitas vantagens em ter uma mãe inglesa. Eu descobri que posso ser uma sex symbol. Sou uma sex symbol para o meu marido.


Você mencionou que gosta de fazer filmes sobre garotas, e não sobre casais. Você se vê como sendo uma feminista?

Gosto de pensar que sou uma feminista tardia porque acho que feministas são aqueles que acreditam que mulheres devem fazer o que quiserem (inclusive trabalhos tradicionalmente masculinos), recebendo o mesmo salário que os homens, dizer o que pensam sem medo de serem censuradas pela sociedade. Claro, não é grande coisa ser feminista hoje, quando esses fatos já caíram no senso comum, mas eu fui suficientemente afortunada para começar minha carreira numa época em que ser feminista era realmente importante.



Falando sobre teatro, como foi trabalhar em Os heróis? É uma história muito poderosa...

Estávamos trabalhando numa peça num pequeno teatro a oito quadras do Ground Zero. Bill Murray e eu começamos a encenar a peça cerca de seis semanas depois dos atentados (de 11 de setembro de 2001). Lembro que as pessoas vinham porque realmente precisavam estar juntas, e o presidente (George W. Bush) dizia "gastem dinheiro, sigam com suas vidas". Mas a cidade estava em choque. A peça deu às pessoas a chance de deixar aflorar um pouco do que estavam sentindo. Foi uma experiência muito emocionante compartilhar essa peça com a audiência, dar a elas a chance de expressar sentimentos que elas não podiam demonstrar em nenhum outro lugar. Fizemos o filme de forma bem rápida depois do encerramento da temporada, e eu acho que funcionou porque é um documento relevante para aquele momento.


O que você acha do presidente Barack Obama? O que espera dele?

Bem, mesmo sem fazer nada ele vai ser melhor do que o anterior. Apoio Obama desde 2004, e acho que ele é muito esperto, inteligente, metódico; e nos deu uma chance de reunir uma equipe como um país, independentemente de partidos, para resolver vários problemas e mal-entendidos. Há um tempo visitei o Marrocos, o que é bem significativo depois de oito anos com um governo que desencorajava os próprios cidadãos a sequer visitarem a Europa por causa do medo de atentados e tudo o mais. E a hospitalidade no festival de cinema, as pessoas que encontramos me animaram. Estar lá foi uma experiência emocionante. Fazer parte do mundo, e conhecer outra cultura, mesmo que por tão pouco tempo, é algo fantástico. Sinto que uma das coisas que realmente quero fazer é viajar mais. Acho que nossa perspectiva deve ser um pouco diferente. Não podemos esperar que o presidente faça tudo. Acho que as pessoas acreditam que começamos uma nova jornada, com um governo honesto.


Você foi indicada ao Oscar três vezes (por Uma secretária de futuro, Aliens - O resgate e Nas montanhas dos gorilas), mas nunca venceu. Qual é a sua opinião sobre o Oscar?

Acho que para vencer um Oscar você precisa estar num filme muito bem promovido. Mas eu gosto de projetos que não se destacam tanto, que não ganham tantos prêmios, mas resultam em trabalhos maravilhosos mesmo assim. Minhas expectativas são muito baixas. Quero apenas continuar recebendo roteiros. Claro, houve uma época em que eu adoraria ganhar um Oscar, mas acho que fiz trabalhos melhores desde então. E eu tenho um "Oscar britânico". (O BAFTA Awards , recebido por seu trabalho em Tempestade de gelo). Está guardado na biblioteca. É um prêmio bonito. Não estava muito bem quando o ganhei, e tomei tantos remédios que não lembro muito bem da cerimônia. Mas me lembro de ter ficado muito feliz e surpresa, até porque nem fui indicada nos EUA.


Você sabe quando fez um bom trabalho?

Acho que sim. Tento trabalhar tão instintivamente quanto puder, e ao final do filme sei se consegui ou não. Por exemplo, por não ser religiosa, se interpreto uma mãe cristã cujo filho se matou, é como se você não soubesse para onde o trabalho está indo. Mas sou mãe. Foi uma experiência extraordinária interpretar uma pessoa de uma família real, que passa por isso. Estou muito animada com o filme, porque acho que tem muito a ver com a nossa época. As coisas não mudaram tanto assim. Prêmios podem vir, quem sabe? Mas tudo o que você pode fazer é dar seu melhor e esperar que o distribuidor leve seu trabalho até as pessoas. É com isso que eu me importo,  com os resultados.


Você corre atrás de roteiros ou prefere esperar pelo que os diretores lhe oferecem?

Nunca fiz nenhum papel para o qual tivesse me oferecido. Se digo que quero um papel é garantia de que não vou consegui-lo.


Então o convite para Avatar foi uma surpresa?

Sim, uma surpresa adorável. Foi ótimo trabalhar com Jim (o diretor James Cameron) de novo. Gostei mesmo, nós nos divertimos muito. Ele é um cientista brilhante. Quando ele me disse "você vai interpretar uma cientista" e explicou o que ela faria, o tipo de testes que tentava fazer, eu fiquei chocada, pensando: "Caramba, olhem só pra isso". Gostei muito do projeto, há muita ciência envolvida neste filme - parte ciência real e parte fantasia. As crianças vão adorar, e os adultos também.


Com que freqüência sua altura (1,80m) foi uma vantagem na carreira, e com que freqüência foi uma desvantagem?

Bem, há muitos diretores que gostam de mulheres altas, mas outros me veem e saem correndo.
Acho que minha altura evitou que trabalhasse em alguns filmes mais delicados, mas também impediu que eu trabalhasse com pessoas convencionais. Um diretor convencional nunca me contrataria. Tive sorte de Peter Weir (que a dirigiu em O ano em que vivemos em perigo) não ligar para a minha altura. Acho que no fim a altura funcionou a meu favor. Tive muita sorte.


E com colegas de elenco?

Na verdade, a pessoa que ficou mais irritada com minha altura foi um ator muito alto. Acho que ele tinha "aquilo" bem pequeno.


Você é uma pessoa emotiva?

Acredito que sim, mas prefiro manter meu lado emotivo para minha vida pessoal e para o trabalho. Não vou ser emotiva na fila do supermercado ou coisa assim.


Como é trabalhar com seu marido (o diretor Jim Simpson)?

Trabalhamos juntos algumas vezes e gosto de fazer isso. Ele me deixa por minha conta, e isso é bom. Ele não me gerencia, e não estou acostumada a isso. Estou acostumada a fazer as coisas bem rápido, e partir para a próxima etapa. Há poucos diretores que tentam fazer as coisas de um jeito totalmente diferente. Meu marido sempre me escala para papéis que ele sabe que vou gostar de fazer. Tentamos ter muito cuidado com os trabalhos que escolhemos fazer. Ele é um diretor muito competente. Na verdade, quanto mais trabalhos ele faz menos ele efetivamente dirige no set - porque escolhe bem o elenco.


Você fez muitas boas comédias - como Heróis fora de órbita, por exemplo. Tim Allen também estava nesse filme e agora voltam a se encontrar em Crazy on the outside...

Isso mesmo. Tim atua e dirige. É sobre um sujeito que sai da prisão, e descobre que sua irmã disse a todos que ele estava fazendo um curso de arte no Louvre. Ela mentiu para todo mundo sobre isso, e aos poucos vemos que ela mentiu sobre muitas outras coisas também. É um filme muito divertido, e Tim está ótimo. Ele também é um grande diretor.

Última atualização em Sex, 12 de Fevereiro de 2010 15:27
 

O poderoso

Sex, 12 de Fevereiro de 2010 15:25 por Fábio M. Barreto


Forest Whitaker é um sujeito extremamente calmo e claro quando fala. Dono de uma voz tranquila e leve, o ator conversou com Cinema.com.br, de Los Angeles, sobre filmes envolvendo o poder e sua relação com o Oscar. Criado no sul de Los Angeles, Whitaker  participou de mais de 70 filmes. Construiu sua carreira com  papéis coadjuvantes que o colocaram sob o comando de diretores como Oliver Stone (Platoon), Martin Scorsese (A cor do dinheiro), David Fincher (Panic room). De todos esses momentos, o mais transformador foi ter assumido o papel principal em Bird, de Clint Eastwood, interpretando a lenda do jazz Charlie Parker. Forest Whitaker se considera  um cidadão do planeta. Entende como excludente "a ideia de que não nos consideremos um mesmo povo", e usa sua celebridade para impulsionar programas de auxílio a necessitados na África. Fez  trabalhos em Luanda, capital de Angola, como parte do programa Idol Gives Back – movimento filantrópico criado pelo American idol – para captar fundos em prol do combate à malária. Além de não poupar elogios a Alice Braga, com quem trabalhou na ficção científica ainda inédita Repossession mambo,  diz ter vontade de trabalhar no Brasil e conhecer mais nossos atores.


O capitão Wander, de Street kings, foi o primeiro papel que você pegou logo após o Oscar. A oferta devia ser intensa, não?

Forest Whitaker:Queria explorar um pouco mais essas facetas do poder. Nesse caso, a corrupção que vem do poder. As implicações do poder. Acredito que uma pessoa tenha mesmo que fazer tudo ao seu alcance para proteger aqueles que ama, mas, em alguns casos, há consequências desagradáveis. Ele é poderoso e vive esses conflitos, mas é bem diferente de Id Amim. É uma aproximação totalmente diferente do mundo.

Você considera  seus personagens vulneráveis?

Gosto de ver o que acontece e afeta o personagem. Normalmente, quando as coisas que eles amam e são importantes estão em riscos, um lado vulnerável pode sim vir à tona, mas é uma particularidade dos papéis, não algo que eu tente provocar constantemente.  Em Street kings, muita gente pode achar que ele é um sujeito, pois é atacado constantemente, mas muitas pessoas crescem e encontram energia no calor da batalha e superam qualquer desafio. Muitos diretores e atores provocam conflitos e, fazendo isso, tornam-se mais criativos. Vulnerabilidade pode ser um ponto forte.


Quanto você permite que seus personagens permaneçam com você depois que as filmagens terminam?

Partes de cada um deles acabam ficando. Não vejo muito problema nisso. Alguns deles valem a pena inclusive lutar para que permaneçam, mas, normalmente, sempre fica alguma palavra, algum jeito de se impor etc. O que vale a pena é a sensação de "reviver" tantas vezes seguidas. O que sou nesse instante é fruto de todas essas ressurreições, especialmente em termos de conhecimento. Tudo que eu faço agora foi influenciado pelos personagens, assim como coisas que aprendi na minha infância. Tento manter as coisas boas, de preferência. Sinto-me renovado e rejuvenescido, pois sempre aprendo. Sempre há algo novo. Agora vou ser um treinador e não jogo basquete muito bem, então vou vivenciar um pouco daquele mundo, conviver com os jogadores e ter uma noção do que é essa vida de técnico. É tudo novo. Como um brinquedo de criança.


Mas por que viver tantos policiais?

Já interpretei tantos policiais que não havia muita coisa nova nessa característica do personagem. Conheço todas as armas, sei até desmontar um AK-47. A novidade mesmo foi a natureza desse homem e sua necessidade de poder e de se manter no poder. Foi interessante compor um sujeito forte e absolutamente convencido de que ele é o rei em toda e qualquer situação, que ele é intocável. Não havia dúvida nisso. O que difere muito de Id Amin, que possibilitava a dúvida, que ele mesmo não sabia se era o mais esperto para resolver a situação e o espectador sentia isso.


É comum permanecer em um personagem constantemente durante filmagens intensas como essa?

Se estou longe de casa e o personagem requer isso, eu até tento ficar o tempo todo concentrado, mas não é tão simples assim. Sempre existe uma ligação, mas nunca o tempo todo. Um cara como Amin, por exemplo, dá a impressão de que, se você se desligar dele, vai perdê-lo e toda aquela intensidade vai embora. Mas alguma coisa fica para gerar uma conexão.


Sua mulher sente essas coisas?

De vez em quando ela percebe isso. Personagens bem diferentes da minha personalidade como Wander ou Amin, por exemplo, são fáceis de se notar. Agora, quando aparece um cara mais quieto, recatado e tranquilo, fica complicado para que eu perceba. Uma vez ela veio me perguntar por que eu estava andando com a cabeça baixa, meio deprimido. Era um personagem aparecendo, mas, por ser um cara tranquilo, eu nem notei.


Você não para de produzir e tem um grande vínculo com filmes independentes. Pretende voltar a trabalhar neles?

É importante ter isso em mente, masr precisamos entender que ser independente não quer dize que as coisas sejam mais fáceis ou simples. Há gente até mais mandona que os estúdios quando se trata de filmes independentes. Eles podem ter o dinheiro e não entender absolutamente nada de cinema, mas, acabam tendo o direito e o poder ali dentro. Ser independente significa ter um filme fruto de uma situação independente, seja ela uma ideia, um conceito, uma visão. Pode até mesmo ser um filme de estúdio, mas ter a alma independente. Uma voz única, que destoa do restante e tem um objetivo.


E falando em objetivo. Você tem alguns definidos fora do mundo artístico, como trabalho humanitário...

Visitei Luanda (Angola) várias vezes, por conta do Idol Gives Back, e ajudei a angariar recursos para o combate à malária. Também ajudo a combater a doença no norte de Uganda. Tenho uma necessidade de me conectar com os outros, de me preocupar com o que acontece, em fazer a minha parte na "diferença". Gosto de usar minha celebridade dessa maneira.


A visita à África mudou seus conceitos?

A visita em si, não, mas a razão, sim. Não fui até lá para fazer um safári ou achar tudo bonito. Cheguei com o intuito de entender os costumes, as tradições, a comida, o jeito de ser, onde eles moram. Precisava entender tudo isso para poder criar o personagem (Amin). Tudo isso era parte dele e acabei aprendendo tudo isso. Considero-me um cidadão do planeta. Não sou estrangeiro em lugar nenhum. Aposto na proximidade como arma modificadora e, se eu puder fazer, eu faço.


E essa vivência internacional? No que agregou profissionalmente?

Quero muito trabalhar no Brasil, em algum filme local talvez. Conheci aquela jovem atriz, Alice Braga, e ela é fantástica! Trabalhamos juntos em Repossession mambo e foi incrível. Tudo que vi dela me impressionou e o pessoal tem falado muito bem dessa garota.


Você se vê como um astro? Sua vida é muito diferente daquela que gostaria de ter?

Ainda tento viver minha vida como sempre, fazer o que gosto e não me preocupar com as pessoas. Não vou ser hipócrita e fazer de conta que não sei que sou reconhecido, mas não deixo isso me afetar. Se alguém aparece para conversar, eu atendo da melhor forma possível.  É uma oportunidade de me conectar com mais gente. Não gosto do termo "estrela", sou um artista. E isso gera fama e também responsabilidade de continuar uma linha de trabalho. Eu sou do tipo de cara que pensa duas vezes antes de falar com alguém ou no meu próximo passo. Seja ele fazer um novo filme, produzir algo, desenvolver um roteiro.


O que é esse desenvolvimento de roteiro?  Foi esse tipo de coisa que você fez para Além da imaginação?

É criar um universo e dar volume ao que está proposto ali para que um filme ou série realmente possa ser realizado.  Eu não escrevo, aliás, desde o ginásio eu não escrevo nada. Embora não tenha escrito, ajudei na composição, dava algumas opiniões e trabalhei como o apresentador, mas foi uma pena não ter funcionado.  Até hoje não entendo o que aconteceu. Tinha gente boa trabalhando, eram filmes semanais. O povo simplesmente não acreditou mais na ideia. Tinha público, mas nada de publicidade. Ninguém usava nomes grandes para promover, então ninguém sabia . Não teve nada a ver com a versão clássica. Toda semana aparecia alguém como William Shatner, por exemplo, até mesmo Frank Sinatra participou de um episódio. Era uma espécie de culto.


A reconquista teve toda publicidade e foi um fiasco retumbante...

Não funcionou. John (Travolta) é um grande amigo e adoro ele. Embora não tenha estudado teatro quando jovem, eu sempre me dava bem na aula de debate por causa de um trecho de A ilha do dr. Moreau (romance de H.G.Wells), quando o personagem diz "sou um homem, não um animal". Sempre quis criar um personagem com esse perfil e aquele brutamonte parecia ser a melhor chance. Junte as duas coisas e lá estava eu. O que aconteceu com aquele filme foi o seguinte: como não havia tanto dinheiro quanto deveria, ou eles conseguiam mais dinheiro e faziam os efeitos como o gênero sci-fi realmente pede, ou seria melhor tirar o elemento da ficção de cena. Personagens com botas gigantes e drealocks só fazem a gente rir. Parecia meio comédia.


O fato de ser o mais recente ator negro a receber o Oscar mudou algo para você ou para a comunidade?

Não fez muita diferença não, pois outros três já haviam ganhado. Muita gente tentou dar muita importância, mas a maioria das críticas e das pessoas naquela noite elogiava apenas a minha performance naquele personagem. Não era "mais um Oscar para um ator negro", foi um prêmio bem profissional. A transformação em Id Amin foi mais impressionante do que a minha cor. E já não é mais tão importante, os primeiros romperam barreiras.


Mas você entrou no radar e deixou de ser o cara dos "papéis pequenos", não? Ou isso já acontecia desde Bird?

Já fiz de tudo. Fui principal em Bird e Ghost dog. Mas eu faço muita coisa como coadjuvante. Nesse filme, Keanu é o principal e eu sou apenas um coadjuvante. Honestamente, até mesmo em O último rei da Escócia eu era um coadjuvante para o James. Ganhei o premio por Melhor Ator, mas James McAlvoy estava em todas as cenas do filme, eu estava ali para dar suporte ao personagem dele. Só apareci em metade do filme.


Entretanto, mesmo em metade do filme, você consegue ser apaixonante e aterrorizante, aliás. De onde vem tudo isso paixão, especialmente por você ser tão pacato?

Sempre tem algo acontecendo dentro de mim. Preciso ser honesto, eu deixo os personagens entrarem e permito uma certa alquimia entre a natureza deles e a minha. É uma espécie de jornada particular que atravesso a cada novo personagem. Eu crio um estado de espírito que permite que eu me imagine num lugar diferente, numa situação diferente. Eu permito que essa mistura aconteça.


E foi esse o caso do arco de episódios em ER (ele interpretava uma vítima de erro médico)? Ver-se naquela situação foi o caminho?

Sim. Tudo que ele se importava foi tirado dele. Ele não tinha mais propósito. Perdeu a família, não podia trabalhar (por causa do erro médico provocado por Luka Kovac). Então, o médico não reconhecia que tinha culpa ou, ao menos, provocado aquilo. Seria suficiente para ele apenas ouvir que alguém foi culpado por toda a desgraça que aconteceu e tudo ficaria menos problemático. A loucura vem de toda essa falta de assumir as culpas. Tudo aquilo explora as falhas do sistema de saúde, que deve salvar vidas, mas acaba gerando problemas, vítimas e, eventualmente, gente sem limites e maluca. Infelizmente.


O voto pode mudar o mundo?

Acho que todos os nossos votos podem mudar o mundo. A mensagem de Obama, que é a união, é muito importante para mim. Ele foi o único que se posicionou contra a guerra desde o começo. Ele tem uma diversidade que possibilita olhar o mundo. Embora sejam votos americanos, essa é uma eleição para o mundo. Um de seus pais não é americano; eles nem são da mesma raça; ele foi criado em outro país boa parte do tempo. Conviveu com a pobreza e teve que se superar para chegar a Harvard, por exemplo. Essas qualidades vão permitir que ele conecte a América com o mundo, seja do ponto de vista político e religioso. Não tem ninguém por aí com essa herança genética capaz de comportar tanta diversidade.

Última atualização em Sex, 12 de Fevereiro de 2010 15:25
 

O senhor das trilhas

Qui, 11 de Fevereiro de 2010 14:49 Ricardo Schott
O músico, compositor e arranjador carioca Francis Hime é um sujeito cujo trabalho é transformar imagens alheias em música. Autor de inúmeras melodias para letras de amigos, boa parte delas surgidas do ato de musicar poemas (como os de Geraldo Carneiro) ele também se dedica, há 40 anos, à realização de trilhas para cinema. Parte desse imenso material ele resgata em seu novo disco, o duplo O tempo das palavras... Imagem (Biscoito Fino). No primeiro CD do pacote, O tempo das palavras, Hime se dedica a lançar músicas novas, em parceria com Carneiro, Joyce Moreno, Edu Lobo, a esposa Olivia Hime, Paulo Cesar Pinheiro e o recém-chegado Paulinho Moska. Imagem, por sua vez, o mostra recordando 25 temas que compôs para os filmes Dona Flor e seus dois maridos, A estrela sobe (ambos de Bruno Barreto), O homem que comprou o mundo (Eduardo Coutinho), O homem célebre (Miguel Faria), A noiva da cidade (Alex Viany), Lição de amor (Eduardo Escorel), Marcados para viver (Maria do Rosário) e Marília e Marina (Luiz Fernando Goulart).

Não se trata apenas de comemoração por seus 40 anos de trilhas (e 70 de idade!) ou de uma simples antologia - a preocupação de Hime, conta o compositor ao Cinema.com.br, é trabalhar para a preservação de filmes brasileiros que se perderam. Dentre eles, alguns exemplares para os quais musicou cenas, e que se encontram musicalmente documentados no novo CD.

Como foi a escolha das músicas que entraram no segundo CD de O tempo das palavras... Imagem?
Francis Hime - Eu pensei em fazer uma viagem por essas trilhas. Seria uma espécie de reconstituição, baseada na minha memória, porque alguns dos filmes se perderam. Fui no meu baú de partituras e comecei a reconstituir essas imagens. Tem faixas que correspondem a determinado trecho do filme, mas com outra instrumentação. A abertura de Lição de amor, por exemplo, é aquilo, mas de outra forma. Para pegar os temas de Dona Flor e seus dois maridos reconstituí as cenas, trabalhei sobre os temas e também fiz um estudo sobre a adequação pianística dessas músicas. Porque tinha temas como os de A noiva da cidade, que não eram muito pianísticos.

Mas deve ter ficado muita coisa de fora, não?
Ah, sim. Eu gravei muito mais coisas, além das que foram para o disco. Mas tive que me ater aos limites físicos, né? Num CD não cabe mais do que setenta e poucos minutos de música. E optei por reagrupar os temas com relação aos filmes, de modo que ficasse mais fácil para o ouvinte. Mas nem quis pôr tudo em ordem cronológica. Comecei logo com Dona Flor e seus dois maridos...

Que por sinal foi o filme mais popular dentre as trilhas selecionadas para o CD.
Isso, com mais de um milhão de espectadores. Enfim, o processo foi esse. O disco foi aparecendo, surgiu de uma conversa que tive com o (jornalista) Tárik de Souza e com minha mulher Olivia Hime. O Tarik vai ser curador da minha caixa, com minha obra, prevista para o ano que vem. E entre os discos a fazerem parte dela, tinha algo referente às trilhas sonoras. Como a caixa ficou para mais tarde, tive a ideia de pegar essas trilhas e fazer um trabalho para piano solo. De fora, acabaram ficando, por exemplo, os temas de República dos assassinos, do Miguel Faria. Não achei temas tão interessantes lá para tocar ao piano.

Você guarda tapes das trilhas que faz em casa? Muita coisa não chegou a sair em vinil.
Tenho, tenho algumas coisas. A da própria República, os originais de A noiva da cidade. Tenho isso aqui comigo e preciso transcrever, porque esse material acaba se deteriorando. O principal, eu acho, é poder recuperar a memória desses filmes, porque muitos estão perdidos. O Luiz Fernando Goulart esteve no lançamento do disco e disse que queria tentar recuperar os negativos de Marília e Marina. Que é um filme até bem pouco conhecido. O Miguel Faria também não tem mais os originais de Um homem célebre. Deve ter algo de repente lá pelo Museu da Imagem do Som, mas muita coisa se perdeu. No show do CD, fizemos uns clipes com algumas imagens para acompanhar as músicas, o que é ideal para entender o som. Tocamos com tudo isso sendo projetado num telão atrás.

Muitas músicas que você fez para cinema se tornaram sucessos da MPB depois, já tendo ganho letras. É algo comum no seu trabalho?
Exato, isso aconteceu com Meu caro amigo. Foi um dos choros que compus para Um homem célebre (baseado no conto homônimo de Machado de Assis). O personagem principal, o Pestana (Walmor Chagas) era um compositor popular que queria fazer clássicos, daí surgem os choros que pus no disco. O Choro nº 1 ganhou letra do Chico Buarque algum tempo depois e virou Meu caro amigo. Tem uma parte que chamei de Temas clássicos, porque mostra o Pestana tentando compor sua grande obra. Ele não consegue ir além, para num acorde que a gente chama de sétima dominante. O curioso é que recentemente o Zelito Viana me convidou para fazer a trilha de um documentário sobre o (diretor de teatro) Augusto Boal, Augusto Boal e o teatro do oprimido, e o tema central é Meu caro amigo, anos depois.

Compor música para cinema não deixa de ser uma parceria...
Realmente é algo muito estreito, é uma parceria sim. O diretor é quem comanda o espetáculo, ele é que é o grande idealizador de como aquele filme vai atingir o espectador. Em alguns filmes recebi o roteiro antes, mas em geral eram conversas já na moviola. A ideia é pensar na adequação da música à cena, tem cenas que você estraga se puser música. Eu preciso ver qual a sensação que o diretor quer que passe, onde ela começa, onde ela termina. E apesar do contato intenso, é sempre um certo mistério, uma certa apreensão, quando a gente vai apresentar a música para o diretor. Se ela não corresponde... Não é como no teatro, para o qual já fiz muitas músicas. No palco dá para mudar, mas no cinema, já está tudo gravado.

Quando você põe música numa letra, é comum que tente imaginar as palavras como uma "cena" na sua cabeça? Como é compor para as imagens dos outros?
Nos últimos anos tenho feito muito isso, até: musicado letras. A Ópera do futebol, que pretendo lançar em breve, tem um texto todo cantado (feito pela escritora e produtora Silvana Gontijo), a música foi feita a partir do texto.  Nesse caso é um pouco diferente: tem um elemento dramático que interfere um pouco. No geral é um namoro que se faz com o texto. Verifica-se ele pode receber uma música, e que tipo de música. A métrica pode não ser determinante, porque tem textos bem simétricos que acabam revelando possibilidades de receber música. Mas é como um namoro mesmo, às vezes dá certo, às vezes não dá. No meu caso, pego um poema, tento musicar e pode ser que não consiga, algo não me satisfaz e mais para a frente, posso retornar e dar um bom resultado. É um processo de tentativa. Nesse disco metade das músicas são poemas musicados. Outros, fiz a música antes. No começo da minha carreira é que era comum que eu fizesse a música antes e depois botassem letra.

Era a época em que todos os compositores tinham parceiros fixos...
Isso. O Tom Jobim fazia mais coisas com o Vinicius de Moraes, depois mudou. Já eu sempre gostei de compor com muitos parceiros. O Geraldinho Carneiro até fala que eu sou o parceiro mais promíscuo da MPB.

Na década de 70 não era penoso fazer música para filmes com a censura? Podia acontecer de você fazer um tema e ele ser cortado porque toda uma cena era cortada...
Eu até que não sofri muito com isso, embora fosse realmente complicado. Mas para A noiva da cidade fiz Lindalva, com o Paulo Cesar Pinheiro, e a censura cortou o verso que falava em "nuzinhos em pelo". Quando gravei, não substituí nada, deixei como se fosse "em branco".  Fiz Queima com o Ruy Guerra e a censura prendeu a letra. Um tempo depois mandamos com outro nome, Pouco me importa, e passou. Quando eu e Chico pegamos o Choro nº1 e ele virou Meu caro amigo, tivemos a ideia de mandá-la para a censura com algumas estrofes a mais. Na época, após uma letra passar pela censura, não se podia acrescentar nada nela, só tirar. Tentamos dar um outro sentido para a letra, como se fosse uma pessoa cobrando uma dívida.

Você estudou composição de trilhas para filmes na Califórnia. Como foi a experiência?
Foi bem interessante. Antes disso já havia feito a trilha de O homem que comprou o mundo, de Eduardo Coutinho (1969). No curso, o Lalo Schifrin e o Davi Raksin reuniam um pequeno grupo de 8 a 10 alunos e traziam músicas que eles fizeram para filmes. E propunham aos alunos que cada um fizesse uma música para determinada cena do filme. Ou então propunham: "agora escrevam uma música sobre o amarelo". O Hugo Friedhofer, autor da trilha de Os melhores anos de nossas vidas (de Wiliam Wyler, filme americano de 1946) também dava aulas para a gente e o mais legal é que ele não se prendia só a cinema, falava sobre música em geral. Tentei colocar esses conhecimentos em prática no Brasil.

No encarte do disco, os diretores dos filmes para os quais você compôs aparecem escrevendo sobre teu trabalho.
Pedi a cada um que escrevesse. O Bruno Barreto, eu inclusive estive com ele num festival de cinema na Polônia. Fiz uma apresentação musical e tocamos algumas coisas da trilha do Dona Flor, falamos em inglês para os poloneses sobre o filme, que foi exibido lá. E pedi a ele que fizese um texto. Ele é uma pessoa muito ligada à música, ele até brinca que é um compositor frustrado...

Por falar nisso, com tantas trilhas no currículo, você não se sente também um cineasta frustrado?
Eu? Nada, gosto mesmo é de fazer música. Além disso, não tenho uma vista muito boa, não. Sou muito míope. Não teria um bom aproveitamento visual para poder dirigir cenas.

Você citaria algum filme que tenha marcado sua vida?

Olha, são tantos... Tenho visto muita coisa do Fellini em DVD, do Bergman, do Godard. Gosto muito de cinema, de diferentes escolas, de imaginar uma música num filme. Às vezes ponho um filme no DVD, tiro o som e fico imaginando uma música dentro de uma cena...

Não dá uma frustração ver um filme e achar que a música nada tem a ver com a cena?
Não. Isso até acontece muito, mas é que depende da intenção do diretor. Pode ser que a música seja ruim, claro. Mas pode ser que o diretor ou o compositor queiram provar algo com a cena ou com a música. Ou então existe outro tipo de sentimento ali.

Última atualização em Qui, 11 de Fevereiro de 2010 14:49
 

"SET parou no tempo"

Qui, 11 de Fevereiro de 2010 14:49 Mario Marques e Ricardo Schott



Ricardo Matsumoto, 38 anos, ex-SET, queria fazer uma publicação voltada a um público mais adulto - sem deixar de seguir uma linha popular e comercial, que abordasse blockbusters, mas centrasse força em reportagens maiores. O projeto pulou a janela e virou a Preview, revista de cinema que chega à sexta edição neste mês (veja a capa abaixo) e caminha célere para o topo do mercado no segmento.

"As reuniões de pauta são bem descontraídas e divertidas e a cada revista mandada para a gráfica temos a sensação de estarmos fazendo o que gostamos de fazer", afirma Matsumoto. Com redação em São Paulo e encontros periódicos para reuniões de pauta e fechamento (cada jornalista trabalha de casa), a revista agora abriu o leque para edições especiais, mirando um público mais jovem. E vem se preparando para novos planos e desafios, como afirma em conversa com o Cinema.com.br.


Cinema.com.br: Passados cinco números, como vocês veem a evolução da revista? Faça um balanço...

RICARDO MATSUMOTO: Acho que está sendo um ótimo aprendizado. O começo não foi fácil, ainda mais para uma revista que não teve verba para divulgação e tal. Foi basicamente pensar no projeto, juntar as pessoas e lançar a revista. Acho que nesses cinco números estamos conseguindo pouco a pouco encontrar um equilíbrio certo para a publicação. Sabemos que o cinema é o principal assunto, mas abrimos espaço para a televisão, DVD, Blu-Ray, tecnologia, etc... Tem gente que fala que somos uma cópia da concorrência. Bem, digamos que temos fontes de inspiração, assim como qualquer pessoa. Se você olha de longe, pode só enxergar as semelhanças (ainda mais porque ninguém aqui quer reinventar a lâmpada). Lendo os textos de perto, percebe que procuramos abordar um filme, por exemplo, de uma forma mais ampla. Não queremos simplesmente esgotar o assunto, e sim oferecer um material diferenciado. Um exemplo: na matéria do filme Onde vivem os monstros, falamos do filme e conversamos com terapeutas e psicólogos, para dar uma cara de reportagem. Isso faz diferença. 

preview_nova1Nunca houve no Brasil três revistas de cinema brigando por um mercado tão pequeno, atingido pela internet freneticamente. Como se descolar da Set e da  Movie?

 

O mais importante é respeitar a concorrência. Cada uma delas tem uma linha editorial distinta. Não falo que somos melhores ou piores que ninguém. Queremos simplesmente fazer nosso trabalho. Nós da Preview optamos por seguir uma linha mais popular e comercial. Temos que sobreviver, não é? Acho importante dar destaque para um blockbuster, da mesma maneira que damos atenção para uma minissérie de TV e um lançamento de um Blu-Ray clássico como Branca de Neve, por exemplo. No final das contas, o fã de cinema pode ser fã de TV e também fã de DVDs e Blu-Rays. Não queremos competir com a internet também. Acho que existe um público que busca novidades, e com certeza sai por aí navegando e descobrindo coisas muito legais em um clique. A internet tem essa agilidade imbatível. Nós oferecemos reportagens com uma abordagem diferente. O objetivo é fazer o leitor se interessar por todo o conteúdo da revista. Ele pode ler calmamente em qualquer lugar. Temos notas curtas, claro, mas o mais importante está na variedade em nossas matérias com conteúdo exclusivo.

A revista começa a lançar edições especiais. Como é o planejamento?

A ideia de lançar as revistas especiais foi do dono da Editora Nova Sampa. Ele queria atingir um público diferente, mais jovem. Daí surgiu a ideia de começar com revistas-pôsteres. Tínhamos um material exclusivo de Transformers: A vingança dos derrotados que foi fornecido pela Paramount e resolvemos começar com ele e Batman (aproveitando o lançamento recente das edições em Blu-Ray). Temos planos de fazer várias outras do gênero, aproveitando outros sucessos. Mas também estamos pensando em outras revistas com temas variados. Acho que tudo serve para reforçarmos a marca.

Há conteúdo, arte, impressão, marketing, distribuição e assinaturas. Esta última vira uma base de fortalecimento do produto. Por que ainda não abriram as assinaturas?


Por duas razões. A primeira era ver como o mercado ia absorver a revista. Não dava para oferecer assinaturas se não sabíamos se íamos passar da quarta edição. Agora com a revista se consolidando, já dá para olhar para o futuro. A segunda é que sabemos que as assinaturas precisam ser bem planejadas. Precisam ser administradas cuidadosamente. Por isso é preciso ter planejamento.  Já estamos quase prontos para oferecer assinaturas. Afinal, assinantes são importantíssimos para qualquer revista.

Sendo o mercado editorial de cinema restrito, como está a briga nos bastidores pelas entrevistas exclusivas e os junkets? Como estão correndo as negociações?

Bem, uma das vantagens é que todos nós da Preview já estamos no mercado faz tempo. Apesar de a revista ser nova, todo mundo conhece a seriedade de nosso trabalho. Por isso, as negociações com estúdios são mais fáceis. E a recepção da revista tem sido boa, e isso ajuda muito. Temos conseguido muito material exclusivo.

Como avalia a Set e a Movie?

Trabalhei 10 anos na Set, então acho que conheço bem a revista. Acho que nos últimos anos ela parou no tempo. Aprendi muito lá, mas pouca coisa mudou nesse tempo todo. Tivemos uma grande ajuda de fenômenos como Star Wars, Senhor dos anéis, Homem-Aranha e Harry Potter. Aproveitamos o embalo, aumentamos as vendas e ficamos conhecidos. Nos últimos anos, entretanto, os fenômenos foram perdendo força. Eu achava que estava na hora de mudar um pouco a linha editorial, tornar a revista um pouco mais "adulta". Era importante segurar nossos leitores mais fiéis, que acompanhavam a gente desde 1999 ou 2000. Estávamos perdendo muitos assinantes também. Como não tive sucesso em convencer a chefia, desencanei. A Movie é um projeto que ia participar. Trabalhei com o André Forastieri na época da revista Herói e sempre nos demos bem. Ele me chamou, mas pouco antes de a gente começar a desenvolver a primeira edição, apareceu a chance de fazer a Preview. Aconteceu tudo muito rápido. Expliquei para o André, ele me liberou e cada um foi tocar seu projeto. Acho que a Movie tem um outro foco, busca inovar o visual e investe em celebridades na capa. Respeito muito o projeto do André, mas não é a revista que eu faria...

Um dos erros históricos de revistas como a Set foi ter abandonado a praça do Rio, alegando que lá nunca se vendeu mais do que 10% da tiragem média nacional. E é fato que os formadores de opinião no Brasil, boa parte no Rio, não compram nenhuma das revistas por acharem que não falam com eles. Há interesse da Preview em mudar essa avaliação de que o Rio é irrelevante para as publicações de SP?

Nunca passou pela nossa cabeça que o Rio de Janeiro é irrelevante. Não achamos nenhum lugar irrelevante, aliás. Tanto que, na distribuição da revista, o Rio é a segunda cidade que mais recebe a Preview, logo atrás de São Paulo. Se você analisar as vendas proporcionais da nossa revista, São Paulo e Rio perdem para o resto do Brasil. Temos um público muito forte no Sul, Centro-Oeste e Nordeste. Estamos começando a investir mais em divulgação em São Paulo e Rio, porque achamos que as pessoas das duas capitais ainda estão começando a conhecer a revista agora. Além disso, um de nossos principais repórteres, o André Gordirro, é carioca e nosso representante oficial no Rio.

Há entre as revistas de cinema um lamentável descuido com o português, com informações erradas, com acabamento. Mas ainda assim os fãs compram e prestigiam. Como a Preview combate esse mal, já tradicional entre as publicações?

O segredo é a revisão. Temos uma jornalista de primeira que cuida da revisão dos textos, depois de passar por todos os editores. Se você vê comentários por aí, sabe que temos o menor índice de erros entre todas as revistas de cinema. Acho que isso é importante. Um ou outro erro pode passar, mas queremos que isso seja exceção, e não regra. 

Qual o percentual de venda da Preview atualmente e qual o tamanho do estrago na concorrência a esta altura do campeonato?

O percentual na quarta edição, que tinha Lua nova na capa, ficou na casa dos 25%. A previsão da edição dos lançamentos de 2010, entretanto, aponta para os 50% ou mais. São números ainda discretos, mas que demonstram bastante potencial, ainda mais para uma revista jovem. Em relação à concorrência, realmente não sei dizer.

Há uma percepção no eixo Rio-SP e em Minas de presença mais maciça da Preview e da Movie nas bancas.  Nos outros estados, da Set. Como firmar a base nesses dois lugares e ampliar aos poucos a distribuição para praças mais distantes, que não encontram a revista?

Acho que a Dinap vai gradativamente percebendo onde nossa revista vende mais e onde vende menos e traça uma estratégia de distribuição mais eficiente. Claro que há lugares em que a revista pode não chegar. Por isso queremos iniciar em breve o serviço de assinaturas, para atender pessoas que não encontram a revista nas bancas.

Por que, afinal, alguns ex-Set resolveram fazer uma nova revista? Qual a motivação?

Acho que foi o desejo de começar um projeto em conjunto. Um projeto em que todas as vozes fossem ouvidas. É engraçado que tem gente que acha que sou eu que faço a revista. Posso ter juntado as pessoas, tido a iniciativa, mas a criação foi coletiva. Claro que tínhamos opiniões parecidas, mas a cara da Preview foi tomando forma com a participação de todos. Além disso, tínhamos um bom entrosamento no trabalho, e resolvemos criar nossa própria revista. Foi uma aposta. Hoje, somos donos da revista. Temos uma parceria incrível com a Nova Sampa e bastante liberdade para fazer a Preview.

Se tivesse que prever o futuro das 3 revistas, como, na sua avaliação, vão estar Preview, Set e Movie em 2011, um pouco antes do fim do mundo de Roland Emmerich?

Bom, espero estar comemorando nossos dois anos de vida, seja com ou sem a concorrência presente.

Última atualização em Qui, 11 de Fevereiro de 2010 19:28
 


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