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O poderoso



Forest Whitaker é um sujeito extremamente calmo e claro quando fala. Dono de uma voz tranquila e leve, o ator conversou com Cinema.com.br, de Los Angeles, sobre filmes envolvendo o poder e sua relação com o Oscar. Criado no sul de Los Angeles, Whitaker  participou de mais de 70 filmes. Construiu sua carreira com  papéis coadjuvantes que o colocaram sob o comando de diretores como Oliver Stone (Platoon), Martin Scorsese (A cor do dinheiro), David Fincher (Panic room). De todos esses momentos, o mais transformador foi ter assumido o papel principal em Bird, de Clint Eastwood, interpretando a lenda do jazz Charlie Parker. Forest Whitaker se considera  um cidadão do planeta. Entende como excludente "a ideia de que não nos consideremos um mesmo povo", e usa sua celebridade para impulsionar programas de auxílio a necessitados na África. Fez  trabalhos em Luanda, capital de Angola, como parte do programa Idol Gives Back – movimento filantrópico criado pelo American idol – para captar fundos em prol do combate à malária. Além de não poupar elogios a Alice Braga, com quem trabalhou na ficção científica ainda inédita Repossession mambo,  diz ter vontade de trabalhar no Brasil e conhecer mais nossos atores.


O capitão Wander, de Street kings, foi o primeiro papel que você pegou logo após o Oscar. A oferta devia ser intensa, não?

Forest Whitaker:Queria explorar um pouco mais essas facetas do poder. Nesse caso, a corrupção que vem do poder. As implicações do poder. Acredito que uma pessoa tenha mesmo que fazer tudo ao seu alcance para proteger aqueles que ama, mas, em alguns casos, há consequências desagradáveis. Ele é poderoso e vive esses conflitos, mas é bem diferente de Id Amim. É uma aproximação totalmente diferente do mundo.

Você considera  seus personagens vulneráveis?

Gosto de ver o que acontece e afeta o personagem. Normalmente, quando as coisas que eles amam e são importantes estão em riscos, um lado vulnerável pode sim vir à tona, mas é uma particularidade dos papéis, não algo que eu tente provocar constantemente.  Em Street kings, muita gente pode achar que ele é um sujeito, pois é atacado constantemente, mas muitas pessoas crescem e encontram energia no calor da batalha e superam qualquer desafio. Muitos diretores e atores provocam conflitos e, fazendo isso, tornam-se mais criativos. Vulnerabilidade pode ser um ponto forte.


Quanto você permite que seus personagens permaneçam com você depois que as filmagens terminam?

Partes de cada um deles acabam ficando. Não vejo muito problema nisso. Alguns deles valem a pena inclusive lutar para que permaneçam, mas, normalmente, sempre fica alguma palavra, algum jeito de se impor etc. O que vale a pena é a sensação de "reviver" tantas vezes seguidas. O que sou nesse instante é fruto de todas essas ressurreições, especialmente em termos de conhecimento. Tudo que eu faço agora foi influenciado pelos personagens, assim como coisas que aprendi na minha infância. Tento manter as coisas boas, de preferência. Sinto-me renovado e rejuvenescido, pois sempre aprendo. Sempre há algo novo. Agora vou ser um treinador e não jogo basquete muito bem, então vou vivenciar um pouco daquele mundo, conviver com os jogadores e ter uma noção do que é essa vida de técnico. É tudo novo. Como um brinquedo de criança.


Mas por que viver tantos policiais?

Já interpretei tantos policiais que não havia muita coisa nova nessa característica do personagem. Conheço todas as armas, sei até desmontar um AK-47. A novidade mesmo foi a natureza desse homem e sua necessidade de poder e de se manter no poder. Foi interessante compor um sujeito forte e absolutamente convencido de que ele é o rei em toda e qualquer situação, que ele é intocável. Não havia dúvida nisso. O que difere muito de Id Amin, que possibilitava a dúvida, que ele mesmo não sabia se era o mais esperto para resolver a situação e o espectador sentia isso.


É comum permanecer em um personagem constantemente durante filmagens intensas como essa?

Se estou longe de casa e o personagem requer isso, eu até tento ficar o tempo todo concentrado, mas não é tão simples assim. Sempre existe uma ligação, mas nunca o tempo todo. Um cara como Amin, por exemplo, dá a impressão de que, se você se desligar dele, vai perdê-lo e toda aquela intensidade vai embora. Mas alguma coisa fica para gerar uma conexão.


Sua mulher sente essas coisas?

De vez em quando ela percebe isso. Personagens bem diferentes da minha personalidade como Wander ou Amin, por exemplo, são fáceis de se notar. Agora, quando aparece um cara mais quieto, recatado e tranquilo, fica complicado para que eu perceba. Uma vez ela veio me perguntar por que eu estava andando com a cabeça baixa, meio deprimido. Era um personagem aparecendo, mas, por ser um cara tranquilo, eu nem notei.


Você não para de produzir e tem um grande vínculo com filmes independentes. Pretende voltar a trabalhar neles?

É importante ter isso em mente, masr precisamos entender que ser independente não quer dize que as coisas sejam mais fáceis ou simples. Há gente até mais mandona que os estúdios quando se trata de filmes independentes. Eles podem ter o dinheiro e não entender absolutamente nada de cinema, mas, acabam tendo o direito e o poder ali dentro. Ser independente significa ter um filme fruto de uma situação independente, seja ela uma ideia, um conceito, uma visão. Pode até mesmo ser um filme de estúdio, mas ter a alma independente. Uma voz única, que destoa do restante e tem um objetivo.


E falando em objetivo. Você tem alguns definidos fora do mundo artístico, como trabalho humanitário...

Visitei Luanda (Angola) várias vezes, por conta do Idol Gives Back, e ajudei a angariar recursos para o combate à malária. Também ajudo a combater a doença no norte de Uganda. Tenho uma necessidade de me conectar com os outros, de me preocupar com o que acontece, em fazer a minha parte na "diferença". Gosto de usar minha celebridade dessa maneira.


A visita à África mudou seus conceitos?

A visita em si, não, mas a razão, sim. Não fui até lá para fazer um safári ou achar tudo bonito. Cheguei com o intuito de entender os costumes, as tradições, a comida, o jeito de ser, onde eles moram. Precisava entender tudo isso para poder criar o personagem (Amin). Tudo isso era parte dele e acabei aprendendo tudo isso. Considero-me um cidadão do planeta. Não sou estrangeiro em lugar nenhum. Aposto na proximidade como arma modificadora e, se eu puder fazer, eu faço.


E essa vivência internacional? No que agregou profissionalmente?

Quero muito trabalhar no Brasil, em algum filme local talvez. Conheci aquela jovem atriz, Alice Braga, e ela é fantástica! Trabalhamos juntos em Repossession mambo e foi incrível. Tudo que vi dela me impressionou e o pessoal tem falado muito bem dessa garota.


Você se vê como um astro? Sua vida é muito diferente daquela que gostaria de ter?

Ainda tento viver minha vida como sempre, fazer o que gosto e não me preocupar com as pessoas. Não vou ser hipócrita e fazer de conta que não sei que sou reconhecido, mas não deixo isso me afetar. Se alguém aparece para conversar, eu atendo da melhor forma possível.  É uma oportunidade de me conectar com mais gente. Não gosto do termo "estrela", sou um artista. E isso gera fama e também responsabilidade de continuar uma linha de trabalho. Eu sou do tipo de cara que pensa duas vezes antes de falar com alguém ou no meu próximo passo. Seja ele fazer um novo filme, produzir algo, desenvolver um roteiro.


O que é esse desenvolvimento de roteiro?  Foi esse tipo de coisa que você fez para Além da imaginação?

É criar um universo e dar volume ao que está proposto ali para que um filme ou série realmente possa ser realizado.  Eu não escrevo, aliás, desde o ginásio eu não escrevo nada. Embora não tenha escrito, ajudei na composição, dava algumas opiniões e trabalhei como o apresentador, mas foi uma pena não ter funcionado.  Até hoje não entendo o que aconteceu. Tinha gente boa trabalhando, eram filmes semanais. O povo simplesmente não acreditou mais na ideia. Tinha público, mas nada de publicidade. Ninguém usava nomes grandes para promover, então ninguém sabia . Não teve nada a ver com a versão clássica. Toda semana aparecia alguém como William Shatner, por exemplo, até mesmo Frank Sinatra participou de um episódio. Era uma espécie de culto.


A reconquista teve toda publicidade e foi um fiasco retumbante...

Não funcionou. John (Travolta) é um grande amigo e adoro ele. Embora não tenha estudado teatro quando jovem, eu sempre me dava bem na aula de debate por causa de um trecho de A ilha do dr. Moreau (romance de H.G.Wells), quando o personagem diz "sou um homem, não um animal". Sempre quis criar um personagem com esse perfil e aquele brutamonte parecia ser a melhor chance. Junte as duas coisas e lá estava eu. O que aconteceu com aquele filme foi o seguinte: como não havia tanto dinheiro quanto deveria, ou eles conseguiam mais dinheiro e faziam os efeitos como o gênero sci-fi realmente pede, ou seria melhor tirar o elemento da ficção de cena. Personagens com botas gigantes e drealocks só fazem a gente rir. Parecia meio comédia.


O fato de ser o mais recente ator negro a receber o Oscar mudou algo para você ou para a comunidade?

Não fez muita diferença não, pois outros três já haviam ganhado. Muita gente tentou dar muita importância, mas a maioria das críticas e das pessoas naquela noite elogiava apenas a minha performance naquele personagem. Não era "mais um Oscar para um ator negro", foi um prêmio bem profissional. A transformação em Id Amin foi mais impressionante do que a minha cor. E já não é mais tão importante, os primeiros romperam barreiras.


Mas você entrou no radar e deixou de ser o cara dos "papéis pequenos", não? Ou isso já acontecia desde Bird?

Já fiz de tudo. Fui principal em Bird e Ghost dog. Mas eu faço muita coisa como coadjuvante. Nesse filme, Keanu é o principal e eu sou apenas um coadjuvante. Honestamente, até mesmo em O último rei da Escócia eu era um coadjuvante para o James. Ganhei o premio por Melhor Ator, mas James McAlvoy estava em todas as cenas do filme, eu estava ali para dar suporte ao personagem dele. Só apareci em metade do filme.


Entretanto, mesmo em metade do filme, você consegue ser apaixonante e aterrorizante, aliás. De onde vem tudo isso paixão, especialmente por você ser tão pacato?

Sempre tem algo acontecendo dentro de mim. Preciso ser honesto, eu deixo os personagens entrarem e permito uma certa alquimia entre a natureza deles e a minha. É uma espécie de jornada particular que atravesso a cada novo personagem. Eu crio um estado de espírito que permite que eu me imagine num lugar diferente, numa situação diferente. Eu permito que essa mistura aconteça.


E foi esse o caso do arco de episódios em ER (ele interpretava uma vítima de erro médico)? Ver-se naquela situação foi o caminho?

Sim. Tudo que ele se importava foi tirado dele. Ele não tinha mais propósito. Perdeu a família, não podia trabalhar (por causa do erro médico provocado por Luka Kovac). Então, o médico não reconhecia que tinha culpa ou, ao menos, provocado aquilo. Seria suficiente para ele apenas ouvir que alguém foi culpado por toda a desgraça que aconteceu e tudo ficaria menos problemático. A loucura vem de toda essa falta de assumir as culpas. Tudo aquilo explora as falhas do sistema de saúde, que deve salvar vidas, mas acaba gerando problemas, vítimas e, eventualmente, gente sem limites e maluca. Infelizmente.


O voto pode mudar o mundo?

Acho que todos os nossos votos podem mudar o mundo. A mensagem de Obama, que é a união, é muito importante para mim. Ele foi o único que se posicionou contra a guerra desde o começo. Ele tem uma diversidade que possibilita olhar o mundo. Embora sejam votos americanos, essa é uma eleição para o mundo. Um de seus pais não é americano; eles nem são da mesma raça; ele foi criado em outro país boa parte do tempo. Conviveu com a pobreza e teve que se superar para chegar a Harvard, por exemplo. Essas qualidades vão permitir que ele conecte a América com o mundo, seja do ponto de vista político e religioso. Não tem ninguém por aí com essa herança genética capaz de comportar tanta diversidade.

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