Críticas da semana

"São Paulo é tão real que chega a ser vertiginosa"

Seg, 08 de Fevereiro de 2010 17:55 Marcella Huche
Plastic city, do chinês Yu Lik Way (All tomorrow’s parties), é o primeiro filme resultante do acordo de cooperação entre Brasil, China e Japão. A história de um chefe da máfia de produtos falsificados foi filmada no bairro da Liberdade, em São Paulo, e conta com atores brasileiros e estrangeiros no elenco. O longa trilíngue — fala-se chinês, português e inglês — que mostra neve em São Paulo e um Tigre Branco em plena Amazônia estreia na próxima sexta-feira, 29 de janeiro, depois de passar pelo circuito dos festivais, quando foi exibido em Veneza. Yu Lik Way fala ao Cinema.com.br sobre São Paulo, a imigração chinesa no Brasil e a experiência de fazer cinema sob censura em Hong Kong, sua cidade natal.


Como surgiu o interesse de filmar no Brasil e, especificamente, em São Paulo?

Yu Lik Way: Primeiramente, a paisagem urbana de São Paulo chamou muito minha atenção. É muita cativante. Prédios e viadutos excêntricos... São Paulo é tão real que às vezes chega a ser vertiginosa! Minha primeira impressão da cidade foi uma mistura de casa com alienação. Toda vez que eu via um beco obscuro ou um sinal de néon gasto imediatamente tinha um curto-circuito mental lembrando das imagens de minha cidade natal, Hong Kong. E logo depois me sentia esmagado por um desinteresse desolador. Meu produtor de locações, Paulo, era um cara muito sensível. Sempre que saímos para procurar lugares para filmar ele dizia "Ei, cara, por que você gasta uma hora olhando para este bairro vazio?". Eu não conseguia nem explicar a mim mesmo, e muito menos a ele. Talvez esta seja a magia de Plastic city.


Como foi o processo da escolha do tema para o filme? Como conciliar interesses e costumes brasileiros e estrangeiros?

Enquanto eu fazia a pesquisa para o roteiro do filme, fui inspirado pela história da prisão de Law Kin Chong (apontado pela Polícia Federal como o maior contrabandista do Brasil). Acho as histórias destes novos bandidos asiáticos realmente cativantes. Fico pensando nas que nunca foram contadas sobre eles e seus destinos eventualmente amaldiçoados. Sua fragilidade, as coisas — visíveis e invisíveis — que os "aprisiona", o absurdo sistema socioeconômico em torno deles.

Quando o tema do filme foi determinado escrevi o esqueleto da história. Fernando Bonnasi desenvolveu o restante do roteiro. Claro que, entre tudo isso, trocamos muitas ideias.


O filme trabalha com diversas referências espirituais, especialmente com o personagem de Yuda. Qual a importância desses elementos na trama de Plastic city?

Plastic city é uma história sobre sobreviventes. O filme começa e terminar na mística floresta amazônica, onde a "guerra" entre corpo e alma encontra sua maior expressão. Tenho interesse particular nesses dois aspectos relacionados da sobrevivência —  a dualidade do hedonismo de um gângster e sua realidade espiritual.


Alguns elementos — como a cena de luta seguida por neve em plena cidade de São Paulo ou o Tigre Branco na Amazônia — são de certa forma surreais; os cortes rápidos e a própria fotografia por vezes remetem à videoarte. Quais referências você utilizou para fazer Plastic city?


As primeiras referências vieram dos filmes mudos. Eu aprendo muito com esse tipo de cinema. A ingenuidade e a pureza da velha técnica de alguma forma se perderam agora. Mas acho que sempre há um jeito de re-imaginar a linguagem, de re-inovar o estilo.

Há alguns anos, totalmente por acaso, peguei um livro chamado Noturno em uma livraria local. Ali estava São Paulo em suma, como uma cidade nua. Quando descobri o impressionante trabalho de Cássio Vasconcellos, foi amor à primeira vista. Disse a mim mesmo que seria ótimo animar essas polaroides, para criar uma luta de espadas nos viadutos retratados. Obviamente, ninguém levou a sério meus devaneios, mas o livro de Cássio ficou comigo como uma bíblia visual.


Como foi a experiência de dirigir atores que falam outra língua?

Tivemos algumas dificuldades, claro. Por exemplo, todas as falas estão no script. Eu não posso me dar ao luxo de ter improvisações. Mas acredito em ter o elenco certo. Temos um diretor de elenco e, juntos, passamos muito tempo escolhendo os atores certos. Depois de escolher o elenco, acredito totalmente no potencial do ator, no que ele diz, como se comporta. Tenho que agradecer ao elenco brasileiro. Eles tiveram uma contribuição muito importante no filme. Mesmo nos papéis pequenos eles fazem as melhores performances.


Por que dublar o personagem Kirin, em vez de substituí-lo?

Nós tentamos dublar Kirin com a própria voz do ator. Mas não soava como um brasileiro nascido no Japão. Então o dublamos com a voz de outra pessoa.


Como é ser cineasta em Hong Kong? A censura é um problema local?

Na China, o sistema de censura é muito rigoroso. Filme não é categorizado, o que significa que uma criança de três anos pode entrar na exibição de qualquer filme. Mas, depois, há uma série de limitações quanto ao tema (sexo, violência etc).  É por isso que pedimos às nossas autoridades para adotar o sistema de categorias. Só assim poderemos desfrutar de liberdade em expressar nosso cinema.

Qual a sua opinião sobre o bairro da Liberdade e a colônia chinesa no Brasil?

Comparada a outras, a imigração chinesa é um fenômeno relativamente novo. Ele só começa no final dos anos 80, quando a China adota a política de reformas e abertura. Eles vêm para o Brasil em busca de oportunidades para abrir negócios. A maioria dos chineses que eu pude encontrar está se escondendo em shoppings ou restaurantes, mal falando português. Essa experiência "self made" de gueto é um quadro triste. Mas espero que as coisas melhorem para as próximas gerações.


São Paulo é a maior cidade do Brasil. Que semelhanças e diferenças são mais gritantes entre os dois países?

Há muitas semelhanças — é tudo caótico e muito urbanizado. Mas São Paulo é muitas vezes maior do que Hong Kong! Hong Kong também tem uma história de 100 anos de colonização. É um caldeirão de culturas do Oriente e do Ocidente. Você pode ver muito hibridismo cultural nesta cidade.

O que você já viu /ouviu sobre o cinema brasileiro?


Eu conheço mais da nova geração de diretores, como Karim Ainouz, Beto Brant, Fernando Meirelles.  Eles têm muita energia e originalidade. Alguns têm um toque mais poético, outros se aproximam mais dos padrões americanos. Claro, eles representam diferentes escolas de linguagens cinematográficas. Mas seus filmes são muito contemporâneos e queridos. Isso mostra a diversidade e a força do cinema brasileiro.

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Última atualização em Seg, 08 de Fevereiro de 2010 18:11
 

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