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"As corujas", curta passado num necrotério, joga luz no coletivo Alumbramento

O Ceará tem espaço especial na 13ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, que começou no dia 22 e se estende até 30 de janeiro. São oito curtas e um longa, além do homenageado Karim Aïnouz, também cearense. A produção profícua do estado deve-se a dois motivos: a recente Escola Audiovisual de Fortaleza e as parcerias desenvolvidas pelo coletivo Alumbramento. Entre as dezenas de filmes produzidos em conjunto está o curta As corujas, de Fred Benevides, exibido nesta segunda para o público de Tiradentes, e recepcionado calorosamente pelas 600 pessoas presentes no Cine-Tenda, no Largo da Rodoviária, coração da cidade histórica. 

 

O zelador de um necrotério segue as noites em vigília — fecha as janelas meticulosamente, cobre com cuidado a cabeça dos cadáveres que jazem nas mesas a lhe fazer companhia. "Em qualquer parte, na noite estarão as corujas", e são elas que podem macular o corpo sem vida, bicando os olhos abertos e imóveis. Embora soturno, Benevides não crê que seu filme trate da morte. "É sobre a vida. Uma dificuldade de comunicar, de deixar um hábito. Precisamos de um pouco de delírio, precisamos sonhar". As corujas foi rodado num mosteiro jesuíta em Baturité, próximo de Fortaleza, e conta com a participação ilustre (e assombrosa, para alguns) de Ludovico, a coruja. A locação estava guardada na memória do diretor desde a infância como um lugar "absurdo", que conheceu numa visita de colégio. "Foi a primeira locação que visitamos. Rodamos alguns cômodos com o padre e, quando já estávamos indo embora, ele disse que tinha uma biblioteca desativada, mas que ia ser difícil usar porque estava toda destruída. Fomos e era o lugar perfeito. Um mês depois voltamos e tinham reformado... O jeito foi destruir tudo", diverte-se.

 

As corujas, já exibido no Curta Cinema, no Rio, é uma "transcriação" de um conto homônimo de Moreira Campos, escritor cearense. Entre uma sessão e outra, em meio ao burburinho do bar da Cine-Tenda, o jovem diretor de 27 anos explica o termo. "Sempre achei 'adaptação' um pouco injusto, como se a pessoa fosse fazer um encaixe, uma coisa meio gambiarra. Tentei captar a ideia original, abstrata, harmonizar com o autor e entender suas motivações". O curta, que ganhou um edital estadual depois de três tentativas, faz parte de um projeto de "transcriações" de outros quatro contos de Moreira Campos — por sinal, padrinho de Karim Aïnouz. "Esse conto é um pouco diferente da obra dele porque é mais simbolista, normalmente ele extrapola características do cotidiano, acaba numa coisa mais absurda que gosto bastante", elogia.

 

"Edgar Allan Poe, Tarkovisky, Goya, Bachelard…", enumera Benevides. Todos foram referências para que o diretor pudesse captar a aura do conto. "Estamos mergulhados em referências. Até os atores são pessoas do meu convívio". O protagonista Manoel Osdemi foi aluno do diretor num curso no Centro Cultural do Bom Jardim, enquanto Alano Zloccowick é poeta e amigo de Benevides, mas nunca tinha atuado. O tom verde perpassa todo o filme, criando uma atmosfera densa e soturna. O efeito é obtido pintando com caneta a base d'água um dispositivo acomplado na câmera. "Eu já tinha usado o efeito em um curta, Kokoronoiro (cores do coração), e gostei muito. O verde vem de Poe, dá aquela sensação aquosa, de imaterialidade, de mistério", comenta.

 

As corujas é mais uma produção do coletivo Alumbramento, que reúne cerca de 20 realizadores cearenses. "O Alumbramento é uma gangue", brinca. "É uma junção de várias pessoas que já conviviam juntas. Moramos no Sítio Sabiá e hoje em dia mora quase todo mundo no Centro, no mesmo prédio". Fazer filmes autorais a várias mãos só acrescenta diversidade à produção. "Isso é maravilhoso, porque todos nós nos conhecemos tão bem... Sou louco por literatura, mas outros têm outros perfis. Esse conhecimento mútuo facilita demais, pegamos atalhos, porque não ficamos com receio, mergulhamos de cabeça para dar nossa melhor contribuição, não competimos, pensamos só no filme", enaltece Benevides. Parcerias feitas pelas amizade e formação acadêmica são as chaves para o sucesso da cena cinematográfica cearense. "É um projeto muito bacana, eu mesmo me formei pela Escola Audiovisual de Fortaleza, idealizada por pessoas bem legais, antenadas, importantes no meio. A formação é perene, por isso dá resultado".

 

No momento, Benevides finaliza o curta Supermemórias, de Danilo Carvalho, uma reunião de imagens de Fortaleza feitas em Super8.

 

A Mostra Tiradentes é parte do programa Cinema sem Fronteiras, que inclui o CineOP e a MostrBH, todos eventos idealizados e realizado pela Universo Produções. São 128 filmes exibidos no evento, que mobiliza três áreas da cidade histórica, com toda a programação gratuita. Nessa 13ª edição, a mostra homenageia o cineasta cearense Karim Aïnouz e tem como tema os Paradoxos do contemporâneo. A Petrobras, a Cemig e a Oi patrocinam a Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

*Marcella Huche viajou a convite do festival