
Cinema com atitude, sem rótulos, nas telas, na praça, na vida de quem faz, assiste — e persiste. Durante nove dias (de 22 a 30 de janeiro) Tiradentes teve suas estreitas ruas históricas repletas por 50 mil pessoas dispostas a ver, pensar e fazer cinema. Exibindo 128 filmes, a 13ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes avançou ainda mais como plataforma de lançamento do cinema nacional, priorizando os primeiros longas dos realizadores e os filmes de pouco espaço no circuito. "Se o senso comum vê o cinema brasileiro como um triângulo composto por comédias de classe média, dramas sociais e documentários, é preciso destacar o paradoxo. O cinema brasileiro contemporâneo é muito mais difícil de sintetizar. O perfil dos realizadores de cinema hoje é próximo ao de uma centopeia, com incontáveis pernas de um mesmo corpo, formado por pessoas de várias idades, formações, origens regionais e estilos dramático-visuais", analisa o curador Cléber Eduardo. O evento recebeu cerca de 10 mil pessoas a mais do que no ano anterior, injetando R$ 2,5 milhões na economia da cidade e da região.
"A Mostra de Tiradentes se consolidou como plataforma de lançamento do cinema brasileiro independente. É uma decisão da curadoria, que acompanhou as mudanças desse cinema e hoje colhe os frutos, reunindo na programação a diversidade das novas realizações", analisa Raquel Hallak, coordenadora-geral do evento. "Como ponto alto, destacaria o amadurecimento na exibição, que monta três estruturas numa cidade de 5 mil habitantes, sem sala de cinema", lembra Raquel, enfatizando que pela primeira vez não há distinção entre as exibições de curtas digitais e em película. Outra novidade desta 13ª edição foi a Mostra Ondas Musicais, que agregou os documentários musicais Dzi Croquettes, Mamonas, o doc e Herbert de perto — este último, eleito o Melhor Longa pelo júri popular — em exibições ao ar livre na principal praça da cidade, no Largo das Forras.
Neste ano, o tema central foi "Paradoxos do Contemporâneo", ilustrado, sobretudo, pelo cineasta homenageado, o cearense Karim Aïnouz, que teve a maior parte de sua filmografia exibida na programação — incluindo seus primeiros curtas e seu mais recente filme Viajo porque preciso, volto porque te amo. O Ceará se consolidou como novo polo de produção cinematográfica. Foram oito curtas e um longa, grande parte sob a guarda do coletivo Alumbramento, coroado com o prêmio do júri jovem e do júri da crítica para Estrada para Ythaca (Guto Parente, Luiz Pretti, Pedro Diógenes e Ricardo Pretti). O cinema colaborativo foi uma das tônicas do evento, que vê na coletividade um meio para de realização independente e autoral.
A 13ª edição da Mostra Tiradentes foi também o lugar escolhido para diversos encontros da classe cinematográfica. A Secretaria do Audiovisual, do Ministério da Cultura, anunciou no evento cinco novos editais de fomento ao audiovisual e a ABPA – Associação Brasileira de Preservação, o Fórum dos Festivais e a ABD Nacional promoveram seus encontros durante a programação do evento.
"Um ponto forte de Tiradentes é que não esquecemos a obra, mesmo discutindo as políticas públicas e fazendo reivindicações", ressalta Raquel. Nessa proposta, houve 19 encontros com a crítica, o diretor e o público, três debates conceituais, além da realização de 12 oficinas, que certificaram 310 alunos.
"Queremos que o cinema brasileiro desponte internacionalmente, por isso trazemos profissionais internacionais ao evento. Abrimos com o Ano da França no Brasil, mas continuamos a parceria por entender que esse diálogo é muito importante", explica Raquel. Nesse ano, o crítico e curador francês Fabien Gaffez, responsável pelas seleções do Festival de Amiens e da Semana da Crítica do Festival de Cannes, foi um dos convidados, e encantou-se com a qualidade dos documentários brasileiros, em especial Morro do Céu, de Gustavo Spolidoro, e Terras, de Maya Da-Rin. "Para o ano que vem, queremos ampliar esse diálogo e a nossa plataforma de lançamento".
A Mostra Tiradentes é parte do programa Cinema sem Fronteiras, que inclui o CineOP e a MostraBH, todos eventos idealizados e realizado pela Universo Produção. A Petrobras, a Cemig e a Oi patrocinam a Mostra de Cinema de Tiradentes.