
Treze horas de filmagens num só dia, três câmeras na mão, cinco atores dirigidos durante a filmagem por mensagens de celular, quatro anos de ensaio - ninguém pode desistir. São essas as premissas do inovador A falta que nos move, de Christiane Jatahy, o destaque das quatro atrações da noite desta quinta na 13ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes. Ele foi o quinto filme a ser exibido na Mostra Aurora, competitiva voltada para os novos realizadores, com até dois longas. Mulher à tarde, do mineiro Affonso Uchoa, foi exibido nesta quinta e também participa da competição. O vazio da vida de três mulheres, filmado com sôfrega lentidão e enquadramentos estáticos, não empolgou o público, entediado e perdido em meio aos formalismos retrógrados. Completaram a maratona cinematográfica da noite de quinta, Belair, de Noa Bressane e Bruno Safadi, documentário que recupera a memória da produtora homônima criada por Julio Bressane e Rogério Sganzerla, responsável pela feitura de sete filmes em quatro meses em 1970, e Verdade de mulher, de Maria Luiza Aboim, que a partir da sua traumática experiência pessoal discute profundamente a violência contra a mulher, ouvindo seis vítimas.
A falta que nos move, por sua inovação e diálogo com o público, foi o destaque da noite, sendo aplaudido efusivamente por duas vezes depois da sessão no Cine-Tenda. Cinco atores — Cris Amadeo, Dani Fortes, Pedro Brício, Kiko Mascarenhas e Marina Vianna — se propõem a rodar um filme completo no dia 23 de dezembro de 2007, em plano contínuo, seguindo um roteiro de tópicos previamente estabelecidos (e ensaiados). Entre conversas, danças e agressões verbais, os personagens devem preparar um jantar para um sexto convidado, que jamais chega. Os atores, entretanto, improvisam muito, acrescentando experiências pessoais ao personagem, moldando-os à sua maneira, e deixando no ar os limites entre ficção e realidade.
Os dispositivos estão explícitos no filme: fala-se sobre o processo de filmagem ("edita, se isso entrar no filme eu não faço"), de direção (mensagens de texto avisando que não era a hora correta para tal cena), de filmagem (os câmeras e os microfones aparecem constantemente) e de atuação ("o seu problema é que você não sabe se expor, como nós estamos fazendo aqui"). Qualquer semelhança com a vida real
televisionada não é mera coincidência.
"O filme retrata relações familiares ou entre amigos que convivem muito e são levados a repetir certo padrões de comportamento. E depois se veem metidos nessas discussões e não conseguem mudar de comportamento, continuam quebrando coisas, discutindo", considera a Christiane, de voz enfática apesar do corpo frágil, estreante no cinema. Inicialmente uma peça de teatro, intitulada A falta que nos move ou Todas as histórias são ficção, o projeto moveu uma densa investigação por parte do elenco e da diretora, que admite orgulhosamente as influências de Festa em família, de Thomas
Vinterberg, do trabalho do escritor e dramaturgo Anton Tchekhov e do cineasta John Cassavetes. "Queríamos falar tanto das relações daqueles cinco personagens, pessoas, atores, como das relações familiares que faziam parte da nossa história. Levantamos materiais pessoais e não pessoais e os atores improvisaram durante dois meses para construir essa peça como se todas as histórias fossem reais, ainda que algumas
fossem fictícias", revela Christiane.
Christiane já filmava os ensaios para a peça lançada em 2005 e, encantada com a visão da cena pela câmera, percebeu que aquela história cabia num outro formato. "Fiquei maravilhada com essa experiência que era uma descoberta para mim. E a transição para o cinema era pertinente, porque era muito potente e profundamente
humano". Durante quatro anos a peça circulou nacional e internacionalmente, em constante mutação e revisão. Para o filme, a proposta também sofreu alterações para que não se limitasse a uma adaptação e trabalhasse na linguagem cinematográfica.
Foram realizados ensaios de 15 em 15 dias, durante cinco meses, para afinar a interpretação e o realismo. "Eu tinha medo de que, com tantos ensaios, perdêssemos a naturalidade no dia da filmagem. Mas foi muito estranho, tudo foi diferente, com muitas surpresas", comentou Kiko Mascarenhas, um dos atores trancafiados. Os ensaios serviram também para descobrir como filmar durante 13 horas ininterruptas. "Montamos uma verdadeira base cinematográfica no primeiro andar da casa e usei uns dois minutos que os atores tinham para trocar a bateria do microfone para dar as instruções anotadas nas últimas duas horas", conta Christiane.
Do próprio dispositivo — uma armadilha no roteiro — surge o grande clímax final, uma catarse alcançada depois de uma longa curva dramática. Indagada se esses dispositivos poderiam ser omitidos do filme, Christiane admite já ter pensado nisso, mas os considera essenciais. "Eles aparecem num crescente durante o filme. Não temos
como fugir, porque o embate é esse. O clímax surge de os atores conhecerem os dispositivos e perceberem uma incoerência".
Christiane é diretora de teatro, conhecida pelas montagens de Memorial do convento, Conjugado e Leitor por horas, e faz de A falta que nos move um filme de atores. Atores-autores, que acrescentam livremente experiências pessoais. "Foi muito interessante para mim como atriz participar do filme e da peça também como dramaturga, diretora. Trabalhar a vida como obra de arte e o limite dessa tensão foi muito interessante. Ao mesmo tempo esvaziamos o poder dos dispositivos do cinema", analisa Marina Vianna, outra a atriz do filme.
O longa, rodado sem nenhum incentivo — o dinheiro foi emprestado da vó de Christiane —tem profissionais de renome nos créditos: a fotografia é assinada por Walter Carvalho e a produção é de Flávio R. Tambellini.