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Kleber Mendonça Filho faz nevar em Recife. E esquenta Tiradentes

Uma cidade tropical, planejada para viver sob o sol fervilhante em absolutamente todos os dias do ano. Com temperaturas médias de 33º C no verão e 22º C no inverno, Recife não conhece temperaturas baixas. Pelo menos não até Kleber Mendonça Filho fazer nevar sobre a Veneza brasileira. Recife frio, exibido nesta quarta-feira no Cine-Praça na 13ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, simula um documentário argentino que retrata a situação desolada em que Recife se encontra depois de um estranho fenômeno climático. O curta de 23 minutos, que ganhou um edital de R$ 80 mil para ser feito, venceu o Festival de Brasília e será exibido nesta sexta (29) no Festival de Roterdã — por isso a ausência do diretor na mostra.

 

O clima europeu se instaura, misteriosamente, quando um meteorito cai na cidade. Pinguins invadem as praias antes apinhadas de corpos dourados, as coberturas são colocadas à venda, mendigos congelam nas ruas, os poucos recifenses que não se refugiam nos shoppings andam encapuzados pelas ruas gélidas e as empregadas domésticas são obrigadas a desocupar o indefectível quartinho dos fundos (mais quentinho) em prol do bem-estar dos filhos do patrão. A identidade cultural de Recife é completamente desconstruída, a partir de um olhar crítico e irônico de um pernambucano sensível.

O público que lotou a sessão a céu aberto na noite desta quarta-feira se arrepiou ao ver o legítimo Rio Capibaribe de Manuel Bandeira tomado por uma neblina espessa, uma chuva constante. O curta demorou três anos para ser feito e, como já se podia imaginar, não foi filmado somente em Recife. "Demorou muito porque a cidade não proporciona muitos dias nublados, para o bem ou para o mal dos recifenses. Às vezes olhávamos a previsão do tempo, nos mobilizávamos e dava praia", brinca Juliano Dornelles, produtor, em conversa ao Cinema.com.br logo depois da exibição do curta na mostra. 

Os efeitos especiais — que simulam neve, o hálito quente em meio ao vento cortante, a neve — foram assinados por Carlos Eduardo Nogueira, que trouxe seu próprio curta, Zigurate (exibido no Festival de Clermont-Ferrand), à Mostra Tiradentes. Para facilitar o trabalho de Nogueira, foram escolhidas locações relativamente propícias. "Rodamos em Gravatá, Itamaracá, Garanhus e fomos até Cape Town, na África do Sul, para poder filmar os pinguins. Mas não usamos todos os takes", lembra Dornelles.

No calor da Recife real, Dornelles já terminou de rodar Mens sana in corpore sano, e agora tenta o apoio de editais para finalizá-lo. Mendonça Filho começa a filmar em julho seu primeiro longa de ficção, O som que nos cerca.

A Mostra Tiradentes é parte do programa Cinema sem Fronteiras, que inclui o CineOP e a MostrBH, todos eventos idealizados e realizado pela Universo Produções. São 128 filmes exibidos no evento, que mobiliza três áreas da cidade histórica, com toda a programação gratuita. Nessa 13ª edição, a mostra homenageia o cineasta cearense Karim Aïnouz e tem como tema os Paradoxos do contemporâneo. A Petrobras, a Cemig e a Oi patrocinam a Mostra de Cinema de Tiradentes.

* Marcella Huche viajou a convite do evento