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Ney Latorraca fala sobre o curta "Vida vertiginosa", inspirado em João do Rio

Amigo de longa data de Luiz Carlos Lacerda, o Bigode, figura marcada da Mostra de Cinema de Tiradentes, Ney Latorraca foi à 13ª edição do evento apresentar o curta Vida vertiginosa, dirigido pelo amigo e inspirado em dois contos de João do Rio. O filme será exibido na tarde deste sábado, em uma sessão de homenagem ao Bigode. Em conversa ao Cinema.com.br, Latorraca,  de 66 anos, 46 de carreira, 36 só na Globo, fala sobre o curta, o preconceito com atores de TV no cinema e os próximos projetos.

 

Você vem a Tiradentes com o curta Vida vertiginosa, de Luiz Carlos Lacerda. Como foi fazer o curta, como surgiu esse convite?

É a primeira vez que venho aqui em Tiradentes para o festival, mas já estive na cidade gravando. Quando você vem para trabalhar acaba não tendo tempo para conhecer a cidade, porque tem que acordar cedo etc. Agora é que estou vendo essa cidade linda e a importância desse festival, que é um dos mais importantes do país. Vim com o Luiz Carlos Lacerda, com quem já fiz dois longas — For all – trampolim da vitória (1997) e Viva Sapato (2004) — e agora estou fazendo esse curta. Eu faço uma ponta e queria participar mais, por isso entrei como produtor com a Latorraca Produções. As pessoas até brincam, "um filminho". Não é filminho, não, é um filme. Fazer um curta é trabalhar com a essência do cinema, dando o que se tem de melhor, direção de arte, os atores, o som, a finalização, e o diretor que está querendo filmar e dá o melhor dele. É genial.

 

Vida vertiginosa é baseado em contos do João do Rio, que você estudou bastante para filmar. O que te surpreendeu nessa imersão?

Peguei todo o material que o Luiz Carlos Lacerda me deu e ainda comprei dois livros novos. Vi a loucura do João do Rio em relação ao teatro. Foi a maior força do teatro no começo do século 19, pautava o Brasil inteiro, fazia todo o repertório do Teatro Municipal e era também muito amigo das atrizes. Comecei a perceber que eu fazia parte da vida dele e tinha interesse em conta um pedaço dessa história. Esses fenômenos vão se repetindo, se juntando numa coincidência — a Império Serrano homenageia João do Rio nesse ano. É bom recuperar uma pessoa que é universal, sendo totalmente brasileiro.

 

A obra do João do Rio tem essa dimensão literária, teatral e cinematográfica. Essa multiplicidade facilita ou dificulta o trabalho do intérprete?

Acho que facilita porque você amplia seu leque de atuação. Ele traz uma coisa interessante, que também combina com o Luiz Carlos Lacerda, que é a eterna juventude. A vontade de ficar sempre com a galera jovem, que é o que rejuvenesce.

 

O que você avalia quando aceita um projeto?

Primeiro é a ideia do que vai ser feito e o grupo que está envolvido no processo. O principal para mim, além do talento das pessoas, é a pontualidade. Não gosto de atraso, o tempo para mim é uma coisa sagrada. Marca às 8h da manhã, eu chego às 5h, sou o primeiro a chegar e não vou mudar nunca. Quando você atrasa um filme, você atrasa muito dinheiro. Todo mundo tem que ser pontual. Eu estava lendo uma reportagem sobre a Sophia Loren do auge, já no segundo Oscar, e ela dizia que se ia filmar às 8h, às 4h ela já estava pronta do set de filmagem vazio, porque precisava daquele tempo para ela. Eu acho que é assim que tem que ser, porque chegando mais cedo é você quem dá a dinâmica do trabalho.

 

O Marco Ricca esteve na Mostra de Cinema de Tiradentes, com Cabeça a prêmio, e falou sobre a dificuldade que o público e os cineastas têm em aceitar atores que já são consagrados pela TV para o cinema. Você tem a sensação de que essa dificuldade realmente existe?

Acho que não. Os maiores atores do teatro e cinema brasileiro estão dentro da TV. Não pode haver esse tipo de preconceito. Quando um diretor vai procurar um projeto, ele pede licença para usar o nome dos atores dentro das leis. Essa novela Viver a vida, por exemplo, tem o ator Nelson Baskerville, que acabou de fazer um filme do Almodóvar. Não importa se é da Band, da Record, da Globo, isso é uma bobagem.

 

O livro Bandidos e mocinhas, de Nelson Motta, será adaptado para o cinema e você está cotado para ser um inspetor junto com a Luana Piovanni. Você já pode adiantar alguma coisa sobre esse projeto?

Estou lendo, já fiz três encontros com o Fábio Barreto, que é o produtor. Aconteceu essa tragédia agora, mas tenho certeza de que ele vai sair dessa. Foi ótimo, estávamos lendo os papéis e o Fabio estava com um, lendo muito bem, até melhor que a gente. Quando li Bandidos e mocinhas, com o Daniel Tendler, e pedi que aumentassem o meu papel, principalmente as minhas cenas com ela. Não era uma questão de aparecer mais, é para ficar mais legal. Vamos começar a filmar esse ano.

 

Mais alguns projetos?

Estou numa peça que quero fazer um show este ano. Estou com uma coisa nova, bem diferente mesmo, na TV Globo. No cinema, acabei de fazer um filme do Paulo César Saraceni, Anchieta José do Brasil, que é um conto do Carlos Drummond chamado O gerente, sobre um homem que sai devorando as mulheres todas. Acho que vai ser ótimo. É um conto de 1938 e tem uma ousadia inesperada para a época.