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"O mundo ainda espera uma onda do cinema brasileiro", diz Aïnouz em Tiradentes

 

O deslocamento é tema constante na filmografia de Karim Aïnouz, cineasta homenageado da 13ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, que começou nesta sexta-feira e se estende até 30 de janeiro. O ir-e-vir também é presente na vida do diretor de Madame Satã (2002), O céu de Suely (2006) e Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009). Cearense de ascendência argelina, Aïnouz estudou em Brasília, Nova York e Europa e diz não pertencer a lugar nenhum. Em conversa ao Cinema.com.br durante a Mostra Tiradentes, o cineasta falou sobre o cinema brasileiro, sua a nova geração — em que aposta todas as fichas — e seu próximo filme, Praia do futuro, que começa a ser rodado no segundo semestre.

 

 

Por mais clichê que seja, você é um cidadão do mundo. Nasceu em Fortaleza, formou-se em Brasília, depois foi para Nova York. Como isso influencia a sua sensibilidade, sua forma de ver o mundo e sua produção?

Karim Aïnouz: Acho que influencia de várias maneiras. Uma coisa que eu adoro quando tenho uma ideia para um filme é poder pensar e conceituar esse filme em um lugar que não é onde eu moro. Isso é muito bom para mim. Fico mais sensível a tudo, tudo é mais estrangeiro. Acho que fico em um estado de suspensão. É muito bacana. Nunca conseguiria escrever O céu de Suely no Nordeste. Eu escrevi o Céu em Berlim, ao lado dos outros dois roteiristas. Acho que tem uma coisa que é estar no mundo — que é nunca estar em casa — que eu adoro. Gosto de ter a minha casa, ela é ótima, muito confortável. Mas a sensação de que você pertence a um lugar completamente nunca me fez muito bem. Não sei explicar, mas sempre gostei de ser estrangeiro. É muito estimulante tentar decifrar as coisas visualmente, não pertencer totalmente.


As coproduções também têm esse olhar estrangeiro, além da ajuda de realização...

Agora estou fazendo um filme que se passa metade do Brasil, metade na Alemanha, e os protagonistas são dois brasileiros (Praia do Futuro). É uma coprodução com a Alemanha. Tem sido muito legal conversar com o produtor alemão sobre o que ele entende e apreende da história. O céu de Suely é uma coprodução com a França. Foi bacana terminar o filme e mostrar o corte a um produtor francês, que não sabe quem é a Hermila, que nunca foi no Nordeste, que não tem a pressão do trabalho. Essa pressão é absurdamente isenta por tudo que eu passei. Acho que fazer coproduções, parcerias com diferentes cantos do mundo, só é bom pro trabalho.

 

E como está o cinema brasileiro no exterior, na sua avaliação?

Eu tenho uma intuição deque o cinema brasileiro vai bombar lá fora, por conta do pessoal mais jovem. Tem gente fazendo um cinema aí... Fui ao Clermont-Ferrand (Festival Internacional de Curta-Metragem de Clermont-Ferrand)neste ano.Há dois filmes completamente desconhecidos, um do Daniel Aragão (Não me deixe em casa), outro do Armandinho (Armando Praça, A mulher biônica). São completamente diferentes de tudo. Acho que o cinema brasileiro está entrando em um momento muito bonito. Tem uma geração cinéfila,com uma prática crítica eacesso a muito mais coisa do que eu tive, e que não vê o cinema como um estilo de vida. Eles têm de fato uma paixão enorme por fazer. Isso vai mudar. Apesar de ter mudado radicalmente e termos alguns filmes que são expoentes internacionais, como o Cidade de Deus, Tropa de elite, acho que o mundo ainda espera uma onda brasileira. E essa onda está chegando. Existe um fascínio e uma simpatia gigantesca com o Brasil, no mundo inteiro, e o cinema está começando a responder isso por conta de filmes que estão sendo feitos agora.

 

Essa nova geração está particularmente forte no Ceará. Como você entende isso?

O que mudou no Ceará é bem simples: formação. E é rápido. Temos uma escola de audiovisual que tem, no máximo, três anos. Uma invenção da prefeitura, daquelas coisas que se diziam "você está louco!". Mas está lá, já formou uma turma, está formando a segunda, e você vê como é rápido. Tem nove curtas cearenses aqui. Acho quehavia cinco pessoas que queriam fazer cinema no Ceará quando eu estava começando. Não estou brincando, era o Rosenberg (Cariry) que já fazia e mais cinco da minha idade.

 

Você considera a formação necessária para fazer cinema?

Eu não sou desses que acham que só deve fazer cinema quando se tem formação. Mas uma formação crítica é muito importante, ter um conhecimento histórico do que você faz. Essa nova geração tem isso. Os meninos da Cinética, da Contracampo têm esse lado da crítica e da prática. Fizemos uma marolinha, agora está na hora mesmo.

 

E o próximo longa, Praia do futuro, quando começam as filmagens? O que você pode adiantar?

As filmagens começam no segundo semestre. São duas histórias de amor. A história de um cara que vai embora para a Alemanha porque se apaixona, sem nunca mais voltar. Depois o filme se torna a história de um irmão pequenininho que cresce e vai para Berlim atrás do irmão que desapareceu, que era salva-vidas.

 

Você continua trabalhando com a questão do corpo?

Totalmente. É uma história sobre um cara que salva-vidas, uma história que não é nada pscicologizante, é física, tesuda. O irmão mais novo vê o mais velho quase como um super-herói, acha ele uma coisa de outro mundo. O irmão tem vinte e poucos anos, ele tem 8. É o cara que salva todo mundo. É um filme sobre deslocamento, sobre pessoas que vão. Estou fazendo para falar sobre o risco. Ambos são personagens que se arriscam.

 

Fotos de Alexandre C. Motta