Nada de set de filmagem, de controlar situações ou dialogar com personagens. No documentário Pacific, do pernambucano Marcelo Pedroso, exibido nesta sexta-feira no Cine-Tenda, na 13ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes (22 a 30 de janeiro), o diretor nem mesmo empunha a câmera. Todas as filmagens foram cedidas por turistas a bordo de um cruzeiro marítimo rumo a Fernando de Noronha. A felicidade oferecida pelos navios brancos e luxuosos, recentemente mais acessíveis a uma parcela da população pelo crédito e melhoria da renda, tem de ser justificada nos mínimos detalhes perante as câmeras familiares. As filmagens foram realizadas sem qualquer interferência do diretor, que após a viagem pediu a cessão das imagens para o filme, que leva o nome do cruzeiro em questão. É ao trabalhar a montagem das imagens dessas 34 câmeras de vídeo que Pedroso consegue fazer um retrato da relação pessoal com as novas mídias, já naturalizadas em nosso cotidiano, perpassando o ideário de felicidade e de formulação de identidade.
Pacific foi o último filme a ser exibido na Mostra Aurora, competitiva direcionada aos novos realizadores com até dois longas, e satisfez a plateia do Cine-Tenda, que ria. A premiação do Júri Jovem e do Júri da Crítica acontece na noite deste sábado, último dia do evento. Pedroso concorre ainda como editor de Um lugar ao sol, dirigido pelo também pernambucano Gabriel Mascaro. "A ideia surgiu de um hábito que me cerca, na minha família, nos meus amigos, que é a substituição de uma experiência real e física do mundo, por uma mediada pela imagem", explica serenamente o jovem Pedroso, barba e cabelo pretos em profusão. "Para mim essa relação é uma resposta à nossa fragilidade e transitoriedade, uma tentativa de se relacionar com o mundo de forma a se estender para além do próprio fim. E essa experiência pode ser potencialmente mais forte que a própria experiência real", comenta. O filme traz cenas da intimidade das famílias, algumas cômicas, outras ingênuas, captadas por pessoas sem o domínio completo da técnica. Talvez por essa razão, Pacific tenha causado vômitos em sete pessoas em seu breve percurso por festivais — uma delas aqui mesmo em Tiradentes. "Fiquei muito sensibilizado com as pessoas que passaram mal, carrego essa culpa. Editei o filme inteiro numa telinha do Final Cut e não passei mal. Não previa isso, mas acho que devo colocar uma advertência para pessoas mais sensíveis", brinca. As imagens não foram captadas por Pedroso, que assina o filme mesmo assim. "O filme é o meu olhar lançado sobre o olhar de outras pessoas, mas há a minha organização de discurso e meu posicionamento dentro daquelas imagens", conclui.
No Cine-Praça, mais de mil pessoas assistiram a Herbet de perto, de Roberto Berliner e Pedro Bronz, que recupera memórias do vocalista dos Paralamas, Herbert Vianna. O longa encerra a Mostra Onda Musicais, apresentada pela primeira vez nessa 13ª edição da Mostra Tiradentes. "Não considero que seja uma documentário musical, é um filme sobre o Herbert. Acontece que meu personagem é um músico muito habilidoso, e ele mesmo faz a trilha do filme", analisa Berliner. O projeto teve início depois do acidente de Herbert, para ajudá-lo na recuperação.

Exibido mais cedo, Esperando Telê, de Rubens Rewald e Tales Ab’Saber, que debate o espaço do futebol no cotidiano e imaginário brasileiros a partir da Copa de 82, também faz parte da Mostra Aurora. Corpos celestes, de Marcos Jorge e Fernando Severa, fechou a noite desta quinta e emocionou o público da mostra. Protagonizado por Dalton Vigh, Francisco é um astrônomo marcado por um acontecimento trágico em seu passado, a que deve sua carreira bem-sucedida de astrônomo. Perdido na imensidão do universo e sua própria insignificância, tem de aprender a lidar com Diana, seu oposto diametral, muito segura de seu espaço no cosmos.

Os debates entre o público, diretor e crítica dos filmes exibidos na noite de quinta, e o seminário Estética do processo: os filmes por trás dos filmes, completaram a programação desta sexta.
A Mostra Tiradentes é parte do programa Cinema sem Fronteiras, que inclui o CineOP e a MostraBH, todos eventos idealizados e realizado pela Universo Produções. São 128 filmes exibidos no evento, que mobiliza três áreas da cidade histórica, com toda a programação gratuita. Nessa 13ª edição, a mostra homenageia o cineasta cearense Karim Aïnouz e tem como tema os Paradoxos do contemporâneo. A Petrobras, a Cemig e a Oi patrocinam a Mostra de Cinema de Tiradentes.