
Só mesmo um amigo de longa data de Herbert Vianna para retratá-lo com tanta intimidade sem tropeçar em armadilhas sentimentaloides. Roberto Berliner, que codirige Herbert de perto ao lado de Pedro Bronz, contabiliza com este longa três documentários sobre a banda, um em cada década — 1987, 1995 e 2005. "Sou suspeito para falar, porque tenho quase uma visão interna, mas os Paralamas do Sucesso se mantiveram num alto nÃvel em toda a sua carreira, sem deixar de experimentar e sempre se refazendo — uma caracterÃstica da banda e do próprio Herbert", analisa Berliner em conversa com o Cinema.com.br durante a 13ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, onde o documentário sobre o autor de Óculos foi exibido na noite desta sexta-feira para um público de 1.500 pessoas no Cine-Praça, que se emocionaram com o percurso da banda e, sobretudo, com as memórias de seu lÃder Herbert Vianna.
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O documentário, que venceu o prêmio de Melhor Direção do Festival de PaulÃnia, retrata a vida de Herbert, perpassando a história da banda de BrasÃlia. "Comecei a pensar nisso logo depois do acidente. Num primeiro momento ficamos preocupados se ele ia viver ou não, depois, quando ele saiu do coma, já pensei em gravar, para ajudá-lo na recuperação", conta calmamente Berliner, vestindo uma camisa laranja e boné, constantemente interrompido por algum conhecido que acenava de longe ou perdia alguns minutos contando as vicissitudes da vida — como o crÃtico Francisco César Filho ou seu parceiro na produtora TVZero, Victor Lopes. "A estrutura do filme é o Herbert se confrontando com a vida dele. É o Herbert de hoje se revendo o Herbert dos anos 70, 80, sua vida inteira. Coisas que ele lembra ou não, coisas que ele lembra melhor do que todo mundo", completa.
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Herbert de perto está próximo de uma vertente de documentários musicais, que homenageiam músicos consagrados, como Arnaldo Baptista (Loki), Titãs (A vida até parece uma festa) e Wilson Simonal (Ninguém sabe o duro que dei, este também produzido por Berliner). Devido a essa prolÃfica produção, a curadoria da Mostra Tiradentes decidiu fazer a Mostra Ondas Musicais, que exibiu Herbert de perto, Dzi Croquettes e Mamonas, o doc na praça principal da cidade histórica. Berliner, entretanto, não é um entusiasta do rótulo. "Eu não diria que o filme é um documentário musical. Se o Herbert não fosse um músico talvez fizesse do mesmo jeito. Mas ele é um puta músico, com uma trajetória incrÃvel, cujas músicas compõem a trilha do filme. Uma trilha muito autobiográfica, já que o Herbert sempre falou dele mesmo nas músicas", rebate. "Sou de uma geração que ficou sem cinema no inÃcio dos anos 90 e teve que se debruçar sobre os videoclipes. Daà a conexão com a música", lembra.
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Documentário musical ou não, Berliner tem na manga um filme sobre Bezerra da Silva, Onde a coruja dorme, de Márcia Derraik e SimplÃcio Neto, que será lançado em fevereiro. Filmagens terminadas, a TVZero pretende lançá-lo depois da Copa. A produtora tem ainda um projeto de linha diametralmente oposta. Trata-se do filme sobre Bruna Surfistinha, O doce veneno do escorpião, protagonizado por Deborah Secco, com direção de Marcus Baldini. As filmagens terminaram em dezembro e o filme será lançado depois da Copa, ainda sem data especÃfica. "É um filme comercial, porque temos que viver de cinema. Os documentários têm uma rejeição pelo público, por mais que os temas sejam pop, como o Herbert", justifica a mudança radical. "É um filme sobre uma personagem curiosa, que escolheu um caminho complexo, rejeitada pela vida, e foi encontrar na prostituição sua vocação, por incrÃvel que pareça. E daà ela se tornou uma grande profissional do ramo, uma craque", define, medindo com cuidado as palavras. "É também uma história de sucesso, mesmo que tenha um fundo do poço".
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Em 2010, Berliner também dirige um filme sobre uma personagem importante, mas longe do documental - leva à s salas e exibição a biografia da psiquiatra Nise da Silveira, que nos anos 40 começou a tratar seus pacientes esquizofrênicos através da arte e usou animais como co-terapeutas. "É um filme sobre essa mulher obstinada, um exemplo de brasileira", elogia. As filmagens para Nise, tÃtulo provisório, começam por volta de maio. A TVZero finaliza também o documentário sobre o grupo de dança Intrépida Trupe, Será que o tempo realmente passa?