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Tiradentes: Mutarelli diz que críticas à sua atuação em "Natimorto" foram duras

Todo fumante conhece o desconforto de abrir um maço de cigarros e ter de se deparar com as imagens de advertência do Ministério da Saúde. A inquietação, contudo, não se compara com a do personagem de Lourenço Mutarelli em Natimorto, de Paulo Machline, que prevê a sorte de seu dia na advertência do maço diário de Cowboy Lights que fuma religiosamente. O ilustrador que migrou para a literatura e foi parar no cinema assina o livro Natimorto, um musical silencioso, inspiração para o longa, além de protagonizá-lo. Mutarelli veio a Tiradentes acompanhar a pré-estreia do filme na 13ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, que teve início na última sexta-feira e se estende até 30 de janeiro.

 

Natimorto conta a história de um agente musical que tenta lançar uma cantora lírica, a "voz da pureza", interpretada por Simone Spoladore. Fumante convicto, bipolar e em constante batalha para se tornar assexuado, ele propõe à cantora que passem suas vidas trancados num quarto de hotel - ela a cantar a música que somente ele ouve, ele a lhe contar as mais fascinantes histórias. Cansado das "agressões do mundo", ele a previne e consegue convencê-la a aceitar a proposta. "Se em Mil e uma noites Sherazade contava histórias para não morrer, o agente se vê na mesma situação para não matar, ou não se suicidar", comentou o crítico paulista Ricardo Calil no debate com a presença de Mutarelli, nesta segunda-feira, no Cine-Teatro, no Centro Cultural Yves Alves.

 

Mutarelli já participara de diversos curtas quando fez uma ponta em Cheiro do ralo, de Heitor Dhalia. Em Natimorto, Marco Ricca estava acertado para o papel, mas teve que sair para fazer Cabeça a prêmio. Depois, pensou-se em Mateus Nachtergaele, que também não pôde participar, por estar em Cannes. "A equipe começou a pensar em alguns galãs e eu queria que alguém feio fizesse o filme. Então me ofereci para o papel. O Paulinho (Machline, diretor) disse que já tinha até pensado nisso. Fiz o teste e passei", explicou Mutarelli, em entrevista ao Cinema.com.br em Tiradentes, entre uma baforada e outra de Marlboro. "Eu me preparei por um mês, principalmente para fazer as cenas de ataque epilético, que exigiam muito fisicamente", revela o ator, que perdeu 9,5 kg durante as filmagens, para melhor viver a metamorfose do personagem. Mas a experiência como protagonista pode ser a última. "Logo depois do Festival do Rio ouvi algumas críticas muito duras, que me deixaram muito chateado, e cancelei outras duas participações que faria como ator. É estranho receber crítica por um trabalho que eu não tenho um controle imediato, que é uma vivência. Não digo que não vou atuar nunca mais, mas pelo menos não vou mais interpretar personagens meus", alegou. "O grande trunfo de Natimorto é a presença e entrega de Mutarelli como protagonista", defende Calil.

 

Mutarelli, porém, não influenciou em nada a direção artística do filme, nem quis ter voz sobre o personagem. "É o filme do Paulinho, vendi os diretos de adaptação para ele. Queria me aproximar do personagem dele. Sou um bom funcionário e sempre pensava: ‘Não quero perder esse emprego'". O resultado foi um filme muito mais seco, sem o humor presente no livro. "O humor no meu trabalho é uma forma de distanciamento. O Paulo deixou a essência da obra mesmo", admite.

 

Em tempos de patrulha antitabagismo, o cigarro é um personagem à parte em Natimorto. "Foi uma coincidência profunda. Quando Natimorto foi adaptado para o teatro pelo Mario Bortolotto, sei que o José Serra (governador de SP) e o Dráuzio Varella (médico) foram à peça e se sentiram incomodados", revelou. "Acho a lei anti-fumo de um radicalismo absurdo. O fumante tem que respeitar certos espaços, mas não fumar nem numa charutaria é exagero", completa.