É comum encontrarmos textos sobre a produção recente de Alain Resnais ressaltando o fato de que o diretor mantém a sua fluidez narrativa mesmo aos 87 anos, afirmação bastante deselegante sobre um cineasta cuja mise en scene guarda tanto requinte. E a despeito dessa refinada orquestração de cena é ainda mais interessante perceber como em As ervas daninhas o diretor não está preocupado em propor uma tese sobre os personagens ou sobre o episódio que as envolve, o que não significa dizer que a narrativa seja vazia ou sem sentido.
Tratando-se de um evento casual que desencadeia uma série de conflitos imprevisíveis entre uma dentista solitária e um enigmático pai de família, Resnais volta a assuntos recorrentes em sua filmografia, como o acaso e a subjetividade que permeia tanto a memória quanto a invenção do outro. É a partir do encontro entre as subjetividades de Marguerrite (Sabine Azéma) e Georges (André Dussollier) que os anseios e medos de ambos afloram como ervas daninhas e surgem nos lugares mais inesperados.
Roteirizado a partir do romance L'Incident, de Christian Gailly, Resnais diz ter sido fiel aos diálogos originais, optando, quando necessário, por soluções narrativas condizentes com o universo do autor. Falando em autoria e retomando um dos preceitos da Nouvelle Vague (movimento ao qual Resnais tem seu nome ligado) é sempre interessante ressaltar a posição do diretor diante da ideia de cinema autoral que se distancia do que pregavam seus colegas na época.
Além de não se considerar autor, já que nunca filmou um roteiro próprio, ele dilui o conceito de autoria cinematográfica entre os vários setores responsáveis pela obra (fotografia, roteiro e montagem, por exemplo), demonstrando logo de cara que sabe muito bem de onde surgem os filmes. É partindo deste universo criativo que um simples incidente surge para modificar o andamento da vida de vários personagens, enquanto o diretor se dá o direito de transitar por inúmeros gêneros, para então arrematar a história com uma brincadeira sobre a simultaneidade dos acontecimentos no tempo e ainda colocar em cena uma criança que se pergunta sobre o seu lugar no mundo só para sugerir que ela provavelmente não terá tempo hábil para descobrir.




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