Não dá para dizer que a família presente em Não, minha filha, você não irá dançar seja disfuncional. Pelo contrário. Na história escrita e dirigida por Christophe Honoré vemos a protagonista Lena (Chiara Mastroiani) e o papel que ela desempenha dentro de uma família bastante comum e cheia de conflitos mal resolvidos.
Seguindo um artifício semelhante ao usado por Jonathan Demme em O Casamento de Rachel, assistimos ao reencontro da filha problemática com sua família. Lena acaba de se divorciar e resolve largar o emprego para cuidar dos dois filhos. Na casa dos pais, ela se depara com as novidades na vida dos irmãos e com uma armadilha preparada pela própria mãe, que, do alto de seu direito materno de interferência, faz o que julga mais acertado para que a filha não ponha seu casamento a perder.
Quando Christophe Honoré abre espaço na narrativa para contar uma história paralela sobre uma moça no interior da França que, obrigada pelo pai a escolher um marido, decide se casar com o homem que for capaz de dançar com ela por 12 horas seguidas, é para explicar ao espectador a natureza frágil e ao mesmo tempo desafiadora de Lena. Que, mesmo embaralhada entre as funções de mãe, filha e esposa, luta para não se imobilizar em nenhum desses papéis e assim resguardar seu direito de escolher o ritmo de sua própria vida.
Parecendo uma Gena Rowlands mais contida, é fácil ligar a atormentada personagem de Chiara Mastroiani à protagonista de Uma mulher sob influência. Tudo bem, Honoré não é Cassavetes, mas esta também não é a questão. As respectivas protagonistas, Mabel e Lena, também não são as mesmas, mas guardam entre si a luta por manterem-se sãs diante de todas as expectativas que os outros alimentam por elas, mas não conseguem suportar a pressão.
Lidando com as sutilezas de uma mulher que está em busca de seu caminho, não espere do filme um ritmo de aventura. A narrativa segue lenta para se apressar em cortes que suprimem momentos óbvios, poupando o espectador das explicações massacrantes e alguns diálogos podem ser bastante emocionantes se você conseguir se conectar com a história de Lena.




