De um lado, um cineasta em crise criativa e perdido entre as mulheres de sua vida. De outro, a grande pressão pelo seu novo filme que se chamará Itália. Só há um detalhe: não há filme nenhum. Guido Contini é confusão da cabeça aos pés e não consegue estabelecer um roteiro. A frase de uma das canções das cenas musicais de Nine "Contini no espaço, sem direção" define o que se passa no musical em que o cineasta aparece perdido nas referências e desejos de sua vida, embora as músicas do filme não sejam das mais impactantes.
A história parece familiar? Pois é. Nine, dirigido por Rob Marshall, é baseado na obra 8 ½, de Federico Felllini, que também deu origem a um musical da Broadway. O filme com direção de Marshall reconstrói algumas cenas e diálogos de Fellini, como a cena de Contini com a amante num hotel barato, e cria outras novas, assim como as cenas musicais.
Os figurinos nas apresentações chamam a atenção pelo requinte e sensualidade, tornando as cenas visualmente muito bonitas. O ritmo das danças e dos cortes durante as músicas traz impacto ao espectador e funciona bem junto aos cenários, vestimentas e interpretação do elenco.
Já as canções de Nine destoam um pouco de todo o resto. Apesar de uma delas ter sido indicada ao Globo de Ouro, intitulada Cinema italiano, as músicas em geral apresentam letras e sonoridades pobres no que diz respeito à composição e inovação. Pouco acrescentam às cenas.
O elenco é notável: Penélope Cruz, Nicole Kidman, Sophia Loren, Kate Hudson, Marion Cotillard e Daniel Day-Lewis no papel principal. Entre as atrizes, Marion Cottilard se destaca interpretando Luisa, a mulher de Guido Contini, que nos primeiros momentos se apresenta como a esposa católica e recatada e depois aflora numa belíssima cena musical de muita sensualidade, talvez a mais tocante do filme. A badalada Penélope Cruz, no papel de amante de Contini, não mostra uma de suas melhores interpretações, ficando um tanto apagada.
Diferentemente do filme de Fellini, Nine não ganha profundidade em critérios artísticos, de experimentação ou pensamento. Apesar de toda a superprodução e beleza visual, o longa-metragem parece cair no puro entretenimento sem muita razão de ser. Os que gostam de musical podem encontrar uma razão a mais para apreciar o filme pela beleza das cenas, mas é melhor não criar grandes expectativas: Nine poderia ser um grande filme, que impactasse o espectador, mas permanece raso.




