A demonstração de importância para além da grande parceria que travou nos anos 40 com o Rei do Baião aparece nos depoimentos e interpretações de, dentre outros, Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Gosta, Gilberto Gil, Elba Ramalho e Lenine — alguma novidade assisti-los mais uma vez como porta-vozes da música popular brasileira em documentários? Mas, embora sejam referências já esperadas, como sujeitos, eles acabam sendo a melhor saída para o doc fluir pela credibilidade. E até mesmo o músico ex-Talking Heads David Byrne versa Asa Branca em inglês e carimba o personagem coautor do clássico como "o homem invisível".
Um extenso clamor pelo reconhecimento da importância do artista em questão, como a maioria de cinebiografias documentais, o filme tangencia a funcionalidade das apresentações dos cantores como melhor modo de destacar a permanência da obra de Teixeira até hoje. Esse ponto de fuga, a bem da audiência, não permite que o diretor Lírio Ferreira, mesmo de Cartola e Árido movie, aprofunde-se em temas políticos que tanto desperta a letra de Asa Branca, por exemplo. O contexto máximo a que o diretor dá destaque é sua contraditória personalidade, bem como eclética, já que o compositor também fora advogado e deputado.
Sua origem talvez explique parte da ausência de aprofundamento em questões sociais, tal como seria provável acontecer se o personagem em questão fosse Luiz Gonzaga, criado no sertão nordestino. Humberto Teixeira, nascido no Ceará, entrou em contato com a música ainda quando criança, desenvolvendo sua aptidão com instrumentos com membros da própria família. Migrou para o Rio de Janeiro, enquanto jovem, e aqui fez sua carreira. Um afastamento das mazelas de sua terra o filme conta, mas mostra como nuance influenciadora do artista.
Detalhes da vida um tanto mais íntima de Humberto Teixeira também são expostos. Mais uma fórmula que se fixa na produção de filmes do gênero, a história contada por parentes como a filha Denise Dummont, também produtora do documentário, passa por casos que tendem a conquistar a simpatia do espectador. O desejo de que Denise entrasse para um colégio de freiras, mesmo sendo ateu, é uma das passagens exemplificadoras.
A tentativa é não nos deixar dúvidas de que o povo que deixou para trás é a principal influência do pensamento de Teixeira. Cenas comprovam isso ao sublinharem paisagens, costumes e tradições típicas do Nordeste brasileiro. Somado a isso, o uso de traços de ilustrações de literatura de cordel como artifício estético. A construção da realidade, aqui — como em muitos outros — passa pela exclamação sutil de que o filme aproveita o gênero para documentação e termina na afirmação de que o esquecimento jamais poderá ser o limbo do poeta.




