Sherlock Holmes é um dos personagens até hoje mais revisitados pelo cinema, e suas várias interpretações recorrem sempre a um tipo de modos aristocráticos, porém astutos, surpreendendo seus adversários pela perspicácia. Guy Ritchie despe Holmes da elegância com que Sir Arthur Conan Doyle lhe esculpiu para trazê-lo à natureza de um pensador cartesiano, embebido pela força do racionalismo como o melhor sistema de interpretação do mundo em fins do século 19. Ritchie apresenta o personagem num cenário mais vivaz, colocando-o não apenas como um homem das ciências, mas, apoiado no fato de que o investigador tem como hobby o boxe, sugere que ele transita por ambientes que abrigam pequenas ilegalidades – como as apostas – e dá à forma física a mesma importância com que trata a inteligência.
É difícil dizer se outro ator além de Robert Downey Jr. teria emprestado tanto carisma ao detetive, que, a partir de sua interpretação e seu humor sarcástico, ganha contornos excêntricos e reforça a ousadia necessária para transitar entre a sociedade londrina da época.
Apesar de ter se tornado comum o uso de referências explícitas à cultura pop em filmes de atmosfera retrô, Ritchie aposta no timing da dupla formada por Downey Jr. e Jude Law – este no papel de Watson – para desfilar elementos já reconhecidos de sua autoria, como os diálogos e cortes rápidos. Assim está caracterizado o "presente" do filme, nos códigos de agilidade que a produção cinematográfica atualmente apresenta. A história tem ares de narrativa contemporânea sem esquecer de que se trata de um personagem da Inglaterra Vitoriana.
A Era Vitoriana e o pensamento cartesiano dão o tom do mistério que Sherlock precisará desvendar: um Lorde ameaça a estabilidade da sociedade e do parlamento inglês lançando mão da magia negra e tentando exercer poder pelo medo. Enquanto isso, Holmes e Watson seguem buscando explicações científicas e físicas para estes eventos "mágicos". O filme ressalta o fascínio que a técnica exerce entre os homens letrados da época e demonstra a criação de um proto controle remoto e de uma arma química, duas inovações que enchem os olhos e a imaginação do investigador.
O ritmo rápido e recortado, somado às cenas de ação, pode ser motivo de crítica por parte dos puristas e antigos fãs do personagem, mas demonstram a apropriação de um clássico por parte do diretor, que cumpre essa tarefa com louvor – e com a ajuda de ótimos efeitos de computação gŕafica, vide a cena da explosão no cais – para marcar a versão das aventuras de Sherlock Holmes com sua autoria. No entanto, gostar ou não do estilo de Guy Ritchie já é outra história.







