Críticas da semana

A vida de Raul tem data

Qua, 03 de Fevereiro de 2010 19:03 Gerhard Brêda

A metamorfose ambulante por trás do mito imutável que se tornou Raul Seixas, o pai do rock brasileiro e diabo nas horas vagas, vaga no documentário Raul - O início, o fim e o meio, dirigido por Walter Carvalho. “Há uma coisa muito clara para nós: o Raul, ao mesmo tempo em que suas músicas são tão fantásticas, sua vida particular tem importância significativa para a história do Brasil porque ele foi polêmico. Teve vários casamentos, parceiros e percalços”, avalia o diretor. O filme estreia dia 28 de abril, em circuito.

Como seu último filme havia sido Cazuza: O tempo não para, o diretor acreditava que o filme de Raul seria uma ficção. Ao bater o martelo pelo documentário, Carvalho convidou Evaldo Mocarzel para ajudá-lo no projeto. “Ele colaborou comigo na parte de pautas. Estou fazendo o filme sozinho, mas precisava de um documentarista excelente, nota mil, como ele é”, diz o diretor.

O primeiro contato aconteceu entre julho e agosto de 2008. Imediatamente, o diretor começou a pesquisar sobre Raul Seixas. “Vi mais de 200 horas de filmes e músicas do Raul”, conta o diretor. “Nesse processo de procurar entender a obra e a vida do Raul, em abril de 2009 iniciamos as filmagens em São Paulo, depois Salvador, Rio de Janeiro, Suíça, Estados Unidos, de volta ao Rio e fechamos em São Paulo”.

E se Evaldo Mocarzel foi chamado para fazer pautas, pautas ele fez. “Foram cerca de 90 pessoas entrevistadas”, revela Carvalho. “Claro, algumas não entram no filme, servem apenas para pesquisa, mas conversamos com amigos de infância, familiares, viúvas, parceiros, produtores, diretores de gravadoras, gente de TV”. Um dos mais emblemáticos parceiros de Raul Seixas é Paulo Coelho, ex-discípulo do bruxo inglês Aleister Crowley e atual autor de best-sellers (e mago branco). “Fomos à Suíça entrevistar o Paulo e ele foi muito generoso conosco. A agenda dele é muito cheia, geralmente as entrevistas duram apenas 45 minutos. Ele bateu um papo de cerca de duas horas com a equipe”.

Outra fonte importante foi o irmão do músico, Plínio Seixas. “Fizemos duas entrevistas, uma em Salvador, com mais de três horas de conversa, e outra em São Paulo, onde fiz uma projeção de imagens que Plínio tinha em super 8 e ele não havia visto em muito tempo. Ele assistiu e comentou as imagens”, revela Carvalho. “Ele foi de uma afetividade e generosidade fantástica”, completa.

Apesar do culto a Raul Seixas (gritos de “Toca Raul!” ainda são ouvidos em qualquer show realizado no território nacional), Carvalho confessa que não se sentiu pressionado na realização do documentário. “Meu compromisso era contar as três fases do Raul. A primeira, nos anos 60, quando ele funda o conjunto Raulzito e os Panteras. Depois, nos anos 70, quando vence o Festival da Canção com Let me sing. Por fim, a década de 80, com Raul se dedicando mais à boemia do que ao processo criativo. Estou concentrado nestes três períodos, considerando que Raul morre em 1989”.

O maior desafio, diz Walter, é encontrar material em vídeo de Raul. “O período da década de 60 tem muito pouca coisa”, analisa o diretor. “Muita coisa do arquivo está na internet, já são imagens conhecidas. Queria evitar este tipo de coisa. A década de 70, que eu chamo de ‘o período fértil’, era uma época muito dura, repressora. Não se registrava muito, não existiam os suportes tecnológicos para o registro de imagens como se tem hoje. Existem os clipes da TV Globo, mas são imagens já famosas. Na década de 80, o Raul tinha menos visibilidade nos programas de TV”.

Por este motivo, Carvalho saiu pessoalmente em uma cruzada em busca de imagens. Fotos de Raul, vídeos amadores, outros olhares sobre o músico. “Fui convidado para fazer uma reportagem pelo Fantástico. Disse que faria se pudesse pedir material inédito do Raul. Pedi, isso repercutiu e me enviaram imagens. Pedi ao Jô Soares para pedir fotos do Raul”, diz o diretor. “Se tem alguma pessoa que filmou o Raul eu vou atrás”.

“Ainda estou fazendo o corpo do filme, é um processo de construção que ainda está em formação”. O diretor vai além, falando da arte de fazer cinema-documentário. “Um filme não se faz a partir do momento que você começa a filmar, mas sim quando você se despede dele e apresenta para o público. É uma gestação”, analisa.

Comentários (1)

RSS feed Comments
...
0
Parabéns, Sr. Brêda! A matéria está muito bem escrita. Estou ansiosa para ver o filme.
Alice Melo , fevereiro 04, 2010

Escreva seu Comentário

smaller | bigger

busy
Última atualização em Qua, 03 de Fevereiro de 2010 19:27
 

Mais