
Cena de "Leite e ferro"
A primeira noite de competição do Festival de Paulínia foi marcada pelo contraste entre o realismo cru e a fantasia alegórica. De início, o público assistiu a Leite e Ferro, documentário de Cláudia Priscilla centrado no drama de presidiárias obrigadas a se distanciar dos filhos recém-nascidos após quatro meses de amamentação; depois, foi levado a mergulhar no universo proposto por Luiz Alberto Pereira em As Doze Estrelas, ficção protagonizada por um astrólogo (Leonardo Brício) contratado para ajudar na escalação de 12 atrizes de signos diferentes que integrarão o elenco de uma nova novela de televisão.
Estreante no campo do longa-metragem, Cláudia Priscilla conviveu durante dois meses com algumas presidiárias, a maioria capturada durante a gravidez e por tráfico de drogas. “Não é um filme sobre prisão, e sim sobre maternidade”, sublinha a cineasta, que logo encontrou sua personagem principal, Luana, com experiência acumulada na vida bandida. Após escolher aquelas que participariam efetivamente do filme, a cineasta passou a lançar determinados temas a serem discutidos: desamparo familiar, drogas, relação conjugal, sexo, confronto com a polícia. “Havia mais um assunto que queria abordar, mas não consegui: homossexualismo”, assume.
Cláudia Priscilla acabou optando por não mostrar o momento em que as mães são forçadas a se separar dos bebês. “Os bebês seguem para casas de parentes ou para abrigos. Mas não tive estofo emocional para acompanhar esse momento. Além disso, decidi estruturar Leite e Ferro a partir de uma imersão no presídio”, justifica a diretora, que assina o roteiro juntamente com seu marido, o também cineasta Kiko Goifman (responsável pelos autorais 33 e FilmeFobia e que acumulou as funções de produtor, com Jurandir Muller, e diretor de fotografia, com Pedro Marques). Leite e Ferro expõe a transição das personagens, da criminalidade para a adesão à religiosidade. “Agora, elas rezam bastante. Entregaram-se a Deus. Dentro do presídio há muito mais Igreja do que médico”, complementa Cláudia Priscilla.
Já As Doze Estrelas é a realização de um projeto antigo do diretor de Hans Staden e O Tapete Vermelho. “Sempre quis fazer esse filme, mas era caro demais”, confirmou Luiz Alberto Pereira, que reuniu um elenco feminino formado por Cláudia Mello, Debora Duboc, Djin Sganzerla, Mylla Christie, Leona Cavalli, Francisca Queiroz, Carla Regina, Rosanne Mulholand e Silvia Lourenço – além das presenças de Brício e de Paulo Betti. “Acredito em astrologia enquanto mitologia, filosofia e estudo da humanidade. Ainda que cada personagem no filme represente um signo, é sempre preciso tomar cuidado para não enveredar por estereótipos”, disse Leona Cavalli. As Doze Estrelas custou R$ 3 milhões e 200, consumiu duas semanas de filmagens em Paulínia e não tem previsão de distribuição ou lançamento comercial.
O repórter viajou a convite da organização do festival
