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Noir com fachos de virtuosidade


Leonardo DiCaprio desafiando os limites entre realidade e loucura numa ilha? Não é a primeira vez que vemos isso. Ele deixa o ensolarado A praia, de Danny Boyle, para embarcar num claustrofóbico e tortuoso thriller noir assinado por Martin Scorsese. Trata-se da adaptação de Laeta Kalogridis do romance homônimo de Dennis Lehane — cuja obra já inspirou Sobre meninos e lobos (Clint Eastwood, 2003) e Medo da verdade (Ben Affleck, 2007). Perfeito em sua estética, Shutter island (no original) treme na trama, que especula, duvida e desorienta-se demais somente para polir o óbvio.


De Niro em 70, DiCaprio nos anos 2000. Em seu quarto trabalho com Scorsese — antes, Gangues de Nova York (2002), O aviador (2004) e Os infiltrados (2006) — o ex-galã encarna Teddy Daniels, um agente federal que ruma para Shutter Island com seu parceiro Chuck Alue (Mark Ruffalo) na bagagem para desvendar a fuga de uma mulher de um manicômio para criminosos. A procurada é Rachel Solando, que afogou os três filhos no lago de sua casa e sumiu, descalça, de sua cela trancada por fora. Entre um interrogatório e outro, Teddy é atormentado por enxaquecas, pesadelos e paranoias. Tudo parece encobrir um mistério, todos sabem de algo mais, nada é tão aquilo que é. É 1954, coração da Guerra Fria, e boatos de conspirações pululam a cada esquina.


Mas Scorsese tem mais em mente do que um interno insano à solta. Nas penumbras do hospital penitenciário, há o temor de bomba atômica, memórias dos campos de concentração nazistas e rumores de experimentos científicos questionáveis. O drama que ganha força, porém, é a sombria fronteira entre realidade e percepção, loucura e sanidade. Pouco a pouco, Scorsese larga tudo nos já pesados ombros de Teddy, que aprendemos, sofre com a morte da mulher (Michelle Williams), cujo assassino é um paciente do sanatório. Nenhum problema é pouco para DiCaprio, contudo, que aqui encarna tão bem Teddy que sua ansiedade arrepia nossa própria pele, enquanto Scorsese ocupa-se em despir a vulnerabilidade e o olhar preocupante — e preocupado — do policial.


O problema é que, aos 40 minutos do filme, Teddy é um homem nu de quase todos os mistérios para o espectador, e o principal problema dramático de Ilha do medo perde gradativamente o interesse do espectador. Exatamente quando deveria acelerar, a trama prende Teddy, fazendo-o encontrar atores excelentes (Emily Mortimer, Jackie Earle Haley e Patricia Clarkson), que expõem cuidadosamente assuntos que enlouqueceriam qualquer um. Resta ainda os admiráveis acenos de Scorsese ao noir, as sombras meticulosas nos chapéus de feltro, os cigarros queimando sinuosamente, um denso e estreito corredor de celas de onde surgem mãos agonizantes.


O filme de Scorsese mais próximo do que se pode considerar terror foi Cabo do medo, com Robert De Niro psicopata e tatuado. O trailer de Ilha do medo o vende assim — o que talvez explique os recordes de bilheteria na estreia americana — mas nada ali assusta, nem mesmo seu final invertido. Scorsese merece o poder da dúvida, contudo, e muitos dizem ser uma adaptação perfeita do livro de Lehane — o próprio diretor já saiu em defesa da obra. A fronteira realista em debate no filme, utilizada por Scorsese como veículo de estudo psicológico ou crítica social em outras ocasiões, aqui não extrapola o sistema claustrofóbico da ilha, mesmo que iluminado por fachos de virtuosidade.


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