Críticas da semana

O velho urso

Seg, 08 de Fevereiro de 2010 16:26 Por Myrna Silveira Brandão

O Festival de Berlim se prepara para celebrar em grande estilo sua 60ª edição, que começa nesta quinta-feira. Desde o longínquo 6 de junho de 1951 – quando o festival teve sua primeira vez com a exibição de Rebecca, de Alfred Hitchcock com Joan Fontaine, estrela do filme, como homenageada – muita coisa mudou. Criado por americanos que ocupavam parte da cidade depois da 2ª Guerra Mundial, e por iniciativa pessoal do oficial Oscar Martay, o nome original era então Berlin International Film Festival. Hoje a Berlinale, como passou a ser conhecida, é um dos três festivais mais importantes da área cinematográfica, juntamente com Cannes e Veneza, e se firma cada vez mais como a plataforma de lançamento europeia das melhores produções da cinematografia mundial. A largada  para a comemorativa edição 2010 acontece com a sessão de gala de Apart together, do chinês Wang Quan’an, a história de um grande amor tendo por pano de fundo a tragédia de um país dividido. O diretor retorna à Berlinale, onde em 2007 ganhou o Urso de Ouro com O casamento de Tuya

"Estou muito alegre por podermos inaugurar o festival com esse filme e também por contarmos com as estrelas internacionais aqui na cidade", declarou Dieter Kosslick, que está completando 10 anos à frente do evento.

About her brother, do veterano diretor japonês Yoji Yamada, encerra o evento no dia 21. O mais recente filme de Yamada, que já esteve na Berlinale por seis vezes, será mostrado fora de competição.

Com 26 filmes vindos de 18 países, a principal mostra do festival inclui diretores estreantes e veteranos consagrados, conforme enfatiza Dieter Kosslick.

"A competição do 60º aniversário da Berlinale será marcada por nomes novos e renomados diretores. Queremos celebrar a história do festival, mas também ter um olhar no futuro do cinema", atesta Kosslick, conhecido por privilegiar filmes de autor, diferentemente de seu antecessor, Moritz de Hadeln, que dava grande atenção aos títulos de Hollywood.

Considerando produções e coproduções, o país anfitrião está em sete títulos, entre os quais se destacam: Jud süss (Alemanha/Áustria), de Oskar Roehler; On the path, (Alemanha/Áustria/Bósnia), de Jasmila Zbanic, ganhadora do Urso de Ouro em 2006 com Grbavica; e The ghost writer (Alemanha/França/Inglaterra), de Roman Polanski, um thriller de mistério estrelado por Ewan McGregor e Pierce Brosnan.

Entre os europeus também despertam expectativa Mammuth (França), de Benoit Delépine; Submarino, de Thomas Vinterberg, e A family, de Pernille Fischer Christensen, ambos da Dinamarca; e ainda o inusitado documentário Exit through the gift shop (Inglaterra) estréia do artista de rua britânico Banksy. O filme, que será mostrado fora de competição, é sobre um homem que tentou fazer um filme sobre o próprio Banksy.

Dos Estados Unidos, que comparece com seis títulos, um dos mais esperados é o drama A ilha do medo, de Martin Scorsese, com um elenco que inclui Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Michelle Williams e o veterano ator Max von Sydow. São destaques ainda Greenberg, de Noah Baumbach, diretor do ótimo A Lula e a baleia; e The killer inside me, de Michael Winterbottom (EUA/Inglaterra), que impressionou o público do Sundance onde foi lançado no mês passado, pelas cenas de extrema violência.

Na delegação asiática, além dos filmes de Quan’an e Yamada que abrem e encerram a Berlinale, um dos grandes destaques é A Woman, a gun and a noodle shop (China) do aclamado Zhang Yimou.

O único representante latino-americano é Rompecabezas, da Argentina, que marca a estréia na direção de Natalia Smirnoff.

Werner Herzog, um dos mais importantes cineastas do novo cinema alemão, preside o júri da mostra competitiva oficial. Diretor, roteirista, produtor e ator, Herzog tem uma carreira consolidada com mais de 50 filmes, entre os quais Aguirre, a cólera dos deuses (1972); O enigma de Kaspar Hauser (1974); Nosferatu, o vampiro da noite (1979); e Fitzcarraldo (1982), que lhe deu a Palma em Cannes de Melhor Diretor naquele ano.

Vencedor do Urso de Ouro em 1998 com Central do Brasil, de Walter Salles, e em  2008 com Tropa de elite, de José Padilha, neste ano o Brasil não está na mostra oficial, mas comparece nas paralelas com seis filmes.

Quatro deles estão na prestigiada Panorama, mostra focada na descoberta de trabalhos destinados principalmente ao cinema de arte e que neste ano apresentará 54 filmes.

Na Panorama Principal foi selecionada a coprodução Brasil/Alemanha Fucking different São Paulo, com histórias assinadas por 11 diretores, na qual as mulheres tratam do mundo gay e os homens abordam o universo lésbico. É o quarto filme da série conceitual Fucking different, produzida por Kristian Petersen. A primeira foi rodada em Berlim (2005), a segunda em Nova York (2007) e a terceira em Tel-Aviv (2008). 

Na Especial serão mostrados Besouro, de João Daniel Tikhomiroff, história de um capoeirista com supostos poderes sobrenaturais, que nos anos 20 enfrentou jagunços e coronéis para acabar com a exploração e a escravidão velada sobre o negro, práticas ainda presentes no Brasil pós-abolicionista. O personagem título é interpretado por Ailton Carmo, de 22 anos, que na vida real é também um capoeirista; e Bróder, do paulista Jeferson De, estrelado por Caio Blat, numa história passada em 24 horas, que traça o reencontro de três amigos que dividiram a infância em Capão Redondo, São Paulo.

Recém-premiado em Sundance com o importante prêmio de audiência, o carioca João Jardim marca presença na Mostra Documenta com O Lixo extraordinário, que ele codirigiu com a documentarista inglesa Lucy Walker e Karen Harley. O filme acompanha o caminho percorrido pelo lixo reciclado no Jardim Gramacho, na periferia de Duque de Caxias (RJ) – maior aterro sanitário da América Latina –  e sua transformação em arte pelas mãos do artista plástico paulista Vik Muniz, com a participação de catadores.

Os famosos e os duendes da morte, por sua vez, premiado longa de estreia do paulista Esmir Filho, foi selecionado para a Generation 14Plus, mostra cujo júri é constituído por jovens. O filme – que ganhou o Troféu Redentor da Première Brasil no último Festival do Rio e também o prêmio da Fipresci –  é inspirado no romance de Ismael Caneppele e mostra um Brasil desconhecido no Vale do Rio Taquari, extremo sul do país, onde vive uma comunidade alemã da região de Pomerânia, desde o século 18. Também integra a mostra, na categoria curta-metragem, Avós, de Michael Wahrnann.

Zita Carvalhosa, produtora e diretora do Festival de Curtas de São Paulo, faz parte do júri internacional da Mostra de Curtas-metragens, juntamente com o alemão Max Dax, editor-chefe da Revista pop Spex, e o diretor polonês Xawery Zulawksi.

Além dos títulos brasileiros, a América do Sul estará representada na Panorama pela Argentina, com Por tu culpa, de Anahí Berneri, uma coprodução com a França.

Uma rara cópia de Metropolis, de Fritz Lang, na versão realizada pelo diretor em 1927 com 150 minutos, é um dos pontos altos da tradicional exibição de um clássico restaurado. Encontrada num Museu em Buenos Aires, 80 anos depois do seu lançamento na Argentina, a cópia foi recuperada pela Fundação Murnau e será mostrada numa sessão acompanhada pela fantástica Orquestra Sinfônica de Berlim, com base na partitura original de Gottfried Huppertz.

Uma retrospectiva, tentadoramente intitulada Play it Again, exibirá 40 filmes, incluindo  raridades dos primeiros anos do festival como  O Cristo proibido, de Curzio Malaparte (Itália, 1950); Miss Julie, do sueco Alf Sjöberg (1951); e Viver, de Akira Kurosawa; além de filmes recentes, como We shall overcome (2005), do dinamarquês Niels Arden Oplev e Magnólia, de Paul Thomas Anderson.

A seleção inclui ainda o cinema de autores europeus  como Signs of life, estreia em longa de Werner Herzog; o melancólico A cidade branca (Dans la ville blanche), do suíço Alain Tanner; bem como destaques da Ásia, entre as quais os marcos O sorgo vermelho, de  Zhang Yimou, vencedor do Urso de Ouro em 1988 e O império dos sentidos, de Nagisa Oshima, que na edição de 1976 foi confiscado e acarretou muitos problemas para o festival, inclusive acusações de estar disseminando a pornografia. 

Os homenageados do ano com o Urso Honorário serão Hanna Schygulla e Wolfgand Kohlhaase que, de formas diferentes, moldaram o cinema alemão. Schygulla trabalhou com diretores renomados como Volker Schlondorff, Wim Wenders e Rainer Fassbinder, numa parceria que rendeu vinte filmes; e Kohlhaase influenciou fortemente o cinema alemão na época da DEFA (produtora da Alemanha Oriental).

Em memória da morte recente de Eric Rohmer, Pauline na praia, que lhe deu o Urso de Prata de melhor diretor em 1983, será mostrado na Berlinale especial. Além dessa vez, Rohmer participou de Berlim em mais três ocasiões, com Contos de inverno, Triplo agente e The collector.

A importante paralela Forum, que está completando 40 anos, apresenta no seu programa principal 34 filmes, 19 dos quais são premieres mundiais, Os títulos foram selecionados entre inscrições da Europa, Japão, Canadá, Israel, África do Sul, China, Coreia, EUA e Índia.

A América do Sul está representada pela Argentina e Colômbia, respectivamente com El recuento de los daños, de Inês de Oliveira Cezar; e El vuelco del cangrejo, de Oscar Ruiz Navia, realizado numa produção conjunta com a França.

Nesta edição a Fórum presta uma homenagem ao cinema brasileiro com a exibição especial do clássico de 1970 O dragão da maldade contra o santo guerreiro, de Glauber Rocha, estrelado por Maurício do Valle e Odete Lara.

Também será feito um tributo ao diretor Shimazu Yasujiro – um dos modernizadores do cinema japonês pré-guerra –  com a exibição de três filmes de sua carreira.

E se os espectadores que forem a Berlim tiverem fôlego para tudo isso podem esperar ainda  muito mais. Além da competição, paralelas, retrospectivas e muitos seminários para debater o desenvolvimento e o futuro do cinema, o festival tem várias outras mostras, como a Kinder Film Fest, de filmes infantis, a Teddy Bear, destinada a filmes com temática homossexual, e a Culinária, com filmes ligados à gastronomia.

As comemorações também serão acompanhadas pela publicação de livros e de uma série de DVDs narrando parte da história da Berlinale. Escrito pelo jornalista Peter Cowie, com apresentação do crítico francês Michel Ciment, presidente honorário da Fipresci, um dos livros que serão lançados, além de refletir o momento atual, vai relembrar o passado com fotos históricas e flagrantes de inúmeras sessões que marcaram o evento nessas últimas seis décadas. Confira os filmes da mostra:

Apart together, de Wang Quan’an – China

A woman, a gun and a noodle shop, de Zhang Yimou – China
Caterpillar, de Koji Wakamatsu – Japão

Shahada, de Burhan Qurbani – Alemanha

Honey, de Semih Kaplanoglu – Turquia/Alemanha

The robber, de Benjamin Heisenberg – Áustria/Alemanha

On the path, de Jasmila Zbanic – Alemanha/Áustria/Bósnia

The hunter, de Rafi Pitts – Alemanha/Irã

Jud süss, de Oskar Roehler – Alemanha/Áustria

The host writer, de Roman Polanski – Alemanha/França/Inglaterra

Mammuth, de Benoit Delépine – França

Submarino, de Thomas Vinterberg – Dinamarca

A family, de Pernille Fischer Christensen – Dinamarca

A somewhat gentle man, de Hans Petter Moland – Noruega

If I want to whistle, I whistle, de Florin Serban – Romênia/Suécia

How I ended this summer, de Alexei Popogrebsky – Rússia

Rompecabezas, de Natalia Smirnoff – Argentina

The killer inside me, de Michael Winterbottom – EUA/Inglaterra

Greenberg, de Noah Baumbach – EUA

Howl, de Rob Epstein e Jeffrey Friedman – EUA

The kids are alright, de Lisa Cholodenko – EUA/França – fora de competição

Please give, de Nicole Holofcener – EUA – fora de competição 

A ilha do medo, de Martin Scorsese – EUA – fora de competição

My name is Khan, de Karan Johar – Índia – fora de competição

About her brother, de Yoji Yamada – Japão – fora de competição

Exit through the gift shop (Inglaterra) de Banksy – fora de competição  

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Última atualização em Seg, 08 de Fevereiro de 2010 17:25
 

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