Animações podem demorar uma eternidade para serem feitas — três ou quatro anos é um tempo normal. Como treinar o seu dragão, que conta a história de um menino magricela viking que alimenta uma estranha amizade com um dragão, teve um ritmo radicalmente acelerado. Os dois realizadores por trás da aventura 3D que estreia em 26 de março fizeram o filme em 12 meses, herdando um projeto que precisava de uma revisão de cabo a rabo.
Pressionados pelo tempo, os roteiristas e diretores Dean DeBlois e Chris Sanders (mesma equipe de Lilo & Stich, de 2002) tentaram evitar algumas armadilhas em que uma produção sem pressa eventualmente cai. "É um modelo que permite indecisão demais", diz DeBlois ao LA Times, em referência aos diversos começos e recomeços previstos na maioria dos calendários dos filmes do gênero. "Você pode entrar numa situação em que a única coisa que 30 pessoas numa sala conseguem concordar é um clichê", exemplificou. Com pressa, as reuniões são menores, e Como treinar o seu dragão acaba sendo mais um filme de diretores do que de comitês — proporcionando originalidade e emoção à produção da DreamWorks.
Baseado no livro infantil de Cressida Cowell, a produção custou cerca de US$ 165 milhões e é o primeiro lançamento de um ano cheio para o estúdio. Em 2010, a DreamWorks libera ainda Shrek para sempre e Megamind. Enquanto a essência da Disney é pensar que dentro de cada pessoa, não importa de que idade, existe uma criança, a DreamWorks faz seus filmes caírem no gosto dos adultos, ao mesmo tempo que podem ser apelativos aos pequenos. A primeira versão do filme, comandada por Peter Hastings, desagradou justo por isso, era muito infantil. Pareceria aos executivos que seria o tipo de filme que os pais levariam os filhos para assistir, mas esperariam do lado de fora.
"É uma história pequena e pessoal, creio que Cressida escreveu assim", disse Bonnie Arnold (Toy story, Over the hedge), produtor do filme. O estúdio, porém, percebeu que a fidelidade poderia ser causa de endividamentos. Se Como treinar o seu dragão não tivesse cenas de ação mais ambiciosas e personagens mais velhos, seu público seria limitado e teria problemas nas bilheterias. "Não era uma história universal que todos amariam", previu Damaschke.
Em 2008, Sanders tinha saído da Disney, depois do acordo com a Pixar, e Damaschke o escalou para substituir Hastings, que fez a primeira versão do filme, pueril demais. Era outubro de 2008, e mesmo que Como treinar seu dragão tivesse sido adiado de novembro de 2009 para março de 2010 (sobretudo para evitar a sombra de Avatar nos cinemas), Sanders não tinha tempo a perder. Chamou o parceiro DeBlois. "Eu comprei uma passagem de avião e começamos nesta semana", lembra Sanders, evocando o convite que fez ao amigo.
Relação mais perigosa; personagens mais velhos
No livro, e na versão original do filme, os personagens eram mais jovens (liderados por um longe menino destemido chamado Hiccup), mas também se mostrava regras de convivência muito diferentes entre os vikings do século 8 da Ilha de Berk e os vizinhos répteis. Os moradores do Mar do Norte em vez de travarem guerra com os dragões, tinham uma relação de cooperação. "Nós sentimos que não tinha perigo suficiente", justificou DeBlois. No filme de Hastings, os meninos mais novos coletam ovos de dragão e criam os bichos, ensinando-os a fazer truques. Na nova versão de Sanders e DeBlois, a aldeia está sob ataque dos répteis, que roubam gado e tocam fogo nas casas do povoado. "Nós tivemos que decidir que eram inimigos. É uma relação mortal. Hiccup é o primeiro a cruzar essa linha", explica Sanders.
Hiccup (dublado em inglês por Jay Baruchel, de Trovão tropical) e seu par romântico, Astrid (America Ferrera, de Ugly Betty) pularam de 10 para quase 17 anos. O dragão central da história, Toothless, também cresceu exponencialmente, de um animal pequeno e carinhoso para numa besta formidável. O interessante é que, em vez de matar os personagens originais, os diretores lhes deram pequenas pontas no filme. Um Toothless exatamente como no livro, por exemplo, aparece no início da projeção, tentando roubar comida do Toothless “real”. Os primeiros Hiccup e Astrid agora são crianças pequenas nos braços de uma mulher, no final do filme, quando Toothless sai num barco. Ao mesmo tempo, a relação entre o Hiccup e seu pai, Stoick the Vast (Gerard Butler), um guerreiro desapontado com as decisões do filho, cresceu num papel central no enredo.
