Críticas da semana

Violência implícita

Qui, 04 de Fevereiro de 2010 17:54 Por Carlos Augusto Brandão

A fita branca, de Michael Haneke, Palma de Ouro e prêmio da crítica em Cannes, é, de fato, um dos melhores trabalhos do diretor alemão, naturalizado austríaco, até o momento. No Festival de Nova York, onde o filme foi lançado para o público americano, Haneke disse que a produção trata do sistema repressivo de educação que alicerçou o nazismo e que havia lido muitos manuais alemães do final do século 19 e início do século 20, antes de escrever o roteiro.

"É um ensaio sobre o surgimento das diversas formas de terrorismo. Quando se impõe algo absoluto como princípio ele acaba se tornando desumano", define o diretor, que rodou o filme em preto e branco numa forma de expressar a iconografia do início do século passado. "A opção se deu pelo fato de as imagens desse período, que vai do final do século 19 ao início do século 20, serem em preto e branco", explica ao Cinema.com.br.

O filme, passado na Prússia, conta a história, iniciada em 1913, de uma comunidade protestante de um vilarejo, pouco antes da Primeira Guerra Mundial. A fita branca - uma imposição do pastor aos seus filhos faltosos até que o pecado seja considerado perdoado - funciona como símbolo de manter na vida adulta a pureza e a ingenuidade da infância. Mas esse símbolo e a calma do pequeno lugarejo são perturbados por sucessivas tragédias, que parecem punições rituais. Um médico que cavalga a caminho de casa sofre um aparente acidente, mas o que ocorre, realmente, é uma tentativa deliberada de assassiná-lo. Crianças, inclusive uma portadora da síndrome de Down, são alvos de constantes violências e a história segue nessa linha.

O desempenho dos atores é fantástico numa seleção de elenco impecável que, no caso das crianças, consumiu seis meses e 7 mil testes.

"Era importante que as crianças tivessem um tipo físico correspondente às imagens que conhecemos do período e, além disso, era fundamental que tivessem talento", ressalva Haneke, que em A fita branca volta a filmar no idioma alemão.

Para ele, o filme não deve ser associado apenas à história alemã e ao nazismo. "O tema se refere a qualquer sociedade e fanatismo, seja de direita ou de esquerda", explica o cineasta, que inicialmente pensou em dar ao filme o título de A mão direita de Deus e mantém o final em aberto, uma de suas marcas. "Cabe aos espectadores refletir sobre o que viram e não a mim direcioná-los para as respostas", afirma.

A produtora Margarete Menégoz, da Losange Films, disse que o longa marca uma mudança importante na carreira de Haneke, embora ele continue com sua visão amarga da humanidade. Assim como no remake americano de Violência gratuita (Funny games, de 2007) - realizado a partir de seu próprio filme de 1997 - a violência em A fita branca é implícita e mais terrível porque é sutil e intrigante. E, se em Caché ele fazia uma crítica à cegueira social da classe média francesa, neste novo trabalho aprofunda sua análise da responsabilidade e da culpa no conturbado contexto do mundo de hoje.

"Eu cresci num ambiente judaico-cristão onde é impossível não ter noção da culpa. Isso não é algo que eu tenha inventado: isso existe", ressalta.

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Última atualização em Qui, 04 de Fevereiro de 2010 18:27
 

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